Como dizia o saudoso professor e jornalista Nilson Lage, uma referência nos estudos de Jornalismo no Brasil, “impor valores é intervir no léxico”, criando nomes ou usando um termo para rotular um valor determinado.
A médica e empresária Natasha Slhessarenko (PSD) anunciou a sua pré-candidatura ao governo de Mato Grosso. Alguns veículos noticiaram dando destaque ao termo “candidata da esquerda”. Ela é filiada do PSD, um partido de centro, e pode contar com o apoio da Frente PT/PV/PcdoB. Ou seja, o veículo, por honestidade intelectual, deve apresentá-la, se a prioridade é identificar o viés ideológico, como “candidata de centro-esquerda”, e não só de “esquerda”.
A mesma lógica deve ser seguida, portanto, para identificar os pré-candidatos que estarão alinhados ao PL, partido que abriga o movimento bolsonarista de extrema-direita. Então, como exemplo, a pré-candidatura do vice Otaviano Pivetta, do Republicanos, partido de direita, deve receber o rótulo de “candidato de direita”. Porém, se Otaviano estiver alinhado com o PL, o rótulo honesto é “candidato de direita e extrema direita”. O mesmo critério deve valer para o senador Wellington Fagundes, do PL. O rótulo legítimo que lhe cabe é “candidato de extrema direita”. Simples assim, usando o critério de honestidade intelectual do bom jornalismo.
Tema de pesquisa acadêmica
Para estudantes de Jornalismo e pesquisadores do campo da Comunicação, a pauta de pesquisa é excelente: como os veículos de Mato Grosso vão usar a lógica redutora de “esquerda e direita” para angular suas notícias? Vão atender ao interesse da extrema-direita que prefere se abrigar sob o rótulo de “direita”? Belas perguntas condutoras de uma pesquisa sobre a realidade local do Jornalismo, no acontecimento da eleição de 2026, cujas implicações começam agora.
Os fatos são subversivos
Em tempo: a baixaria projetada de atacar a médica e empresária Natasha Slhessarenko como “esquerdista” vai fracassar. Afinal, os fatos são subversivos. Ela é empresária, igual a Blairo Maggi e Mauro Mendes, que saíram candidatos diretos a cargos majoritários. É uma cristã praticante, fervorosa, defensora de valores da família. A pauta moralista da extrema direita vai bater de frente com a realidade da “candidata da oposição”, um rótulo mais apropriado à sucessão ao governo Mauro Mendes.
*Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e doutor em Comunicação pela UFMG.
