O cerco de Donald Trump à Venezuela tem como pretexto uma campanha de luta contra o narcotráfico, mas não passa de um pretexto meramente instrumental para pressionar o regime comunista de Nicolás Maduro. E é um cerco em que o próprio presidente norte-americano nem sequer se esforça para mostrar coerência, bem pelo contrário.
Sabe-se que, desde setembro, os EUA realizaram 21 ataques contra barcos que alegadamente transportavam droga na zona do mar das Caraíbas, o que resultou na morte de 83 pessoas, tendo a ONU classificado várias destas operações como “execuções extrajudiciais”. Os EUA não apresentaram provas de que as embarcações atingidas transportassem estupefacientes e alguns dos sobreviventes dos ataques regressaram a casa sem qualquer acusação.
Ao mesmo tempo, os EUA enviaram para as Caraíbas vários navios de guerra e cerca de 15 mil soldados, deram um ultimato a Maduro para abandonar o poder e anunciaram o fecho do espaço aéreo sobre a Venezuela, o que teve de imediato o efeito de isolar aquele país de 28 milhões de habitantes, para onde o FMI prevê um aumento da inflação de 548% neste ano. Esta terça-feira (2), Trump anunciou mesmo ataques por terra “em breve”.
Porém, enquanto os EUA usam a força a bel-prazer na alegada cruzada contra o narcotráfico, Donald Trump resolveu conceder um perdão total ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, que foi libertado precisamente nesta segunda-feira, apesar de ter sido condenado nos EUA, em 2024, por, na qualidade de presidente, ter facilitado o tráfico de drogas e uso de armas, incluindo o envio de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos ao longo de 20 anos com a ajuda de cartéis violentos. Esta libertação está não só a chocar altos funcionários da agência antidrogas (Drug Enforcement Administration, DEA, em inglês), como mostra à evidência que a “tolerância zero” de Trump contra as drogas é um teatro político.
A condenação de Hernández a 45 anos de prisão tinha sido um marco no combate dos EUA ao narcotráfico. Segundo a DEA, Hernández “usou os lucros do narcotráfico para financiar a sua ascensão política e, depois de eleito presidente, utilizou os recursos das forças de segurança, das Forças Armadas e do sistema financeiro do governo das Honduras para expandir o seu esquema de tráfico de droga”.
Donald Trump, no fundo, está a jogar xadrez de forma hostil e violenta com os países da América Central e do Sul. Tenta derrubar Maduro pela força, tentou interferir nas eleições das Honduras (que no domingo deram um empate técnico entre os dois candidatos de direita), tal como fez com a Argentina, quando anunciou que só iria continuar a ajudar aquele país se Javier Milei fosse reeleito. Vale tudo para Trump.
(Transcrito do PÚBLICO)
