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Semear O futuro e um Brasil Socialista

por admsocialista
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Vamos, caminhando de mãos dadas com a alma nova
Viver semeando a liberdade em cada coração
Tenha fé no nosso povo que ele acorda
Tenha fé no nosso povo que ele assusta
Credo, Letra de Fernando Brant e Milton Nascimento

Há momentos em que a política deixa de ser apenas disputa de posições e passa a ser definição de época. Que já não basta administrar o presente, corrigir danos ou ocupar espaços. O que se coloca diante de nós é algo mais profundo. Trata-se de disputar o sentido do tempo, a direção da história e a própria possibilidade de um futuro comum. É nesse terreno que estamos.

Nascemos em um período de grandes desordens. O capitalismo já não se apresenta sequer como promessa de estabilidade. Ele se reproduz por meio da crise, da insegurança e do medo. Precariza o trabalho, destrói vínculos, mercantiliza a vida, converte direitos em privilégio e oferece à maioria apenas a administração exaustiva da sobrevivência. Ao mesmo tempo, reorganiza a dominação por novas e velhas formas. Em todo o mundo, a extrema direita cresce como linguagem do ressentimento, da violência e da simplificação brutal. Fabrica inimigos, autoriza crueldades, dá forma política ao ódio e tenta transformar a desesperança em projeto de poder.

A crise climática já não pertence ao futuro. Ela entrou definitivamente no presente. O que vemos é a devastação dos territórios, a expropriação dos povos, a mercantilização da água, da terra e da própria possibilidade de viver. A destruição da natureza não é um efeito colateral do sistema. Ela é parte de seu funcionamento. O capital avança sobre florestas, rios, biomas e comunidades com a mesma lógica com que avança sobre os corpos, sobre o trabalho e sobre o tempo da vida. Defender as reservas naturais do Brasil, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Mata Atlântica, a Caatinga, os Pampas e todos os territórios ameaçados é defender a própria continuidade da existência coletiva. O ecossocialismo, para nós, não é adorno programático. É necessidade histórica.

O Brasil condensa de maneira intensa as contradições do nosso tempo. Somos uma sociedade marcada pela violência colonial, pela escravidão e pela permanência estrutural dessas marcas no presente. A desigualdade nunca foi aqui um acidente. Ela foi forma de construção do país. O racismo organiza a distribuição da morte e também a gestão da pobreza. O patriarcado continua estruturando a exploração do trabalho, a violência contra as mulheres e o controle dos corpos e dos desejos. A concentração da terra, da renda, da mídia e do poder segue sendo uma das bases mais profundas da vida nacional. O passado não passou. Ele continua operando no presente como forma social, como hierarquia e como bloqueio ao futuro.

Mas o Brasil é também uma terra de resistência. Neste país se levantaram greves, revoltas, quilombos, comunidades de luta, levantes camponeses, movimentos negros, feministas, indígenas, LGBTIs, anticapacitista, anti-etaristas, antiproibicionistas e antimanicomiais, estudantis, populares e sindicais. Neste país a cultura sempre foi mais do que expressão. Foi abrigo, linguagem de sobrevivência, elaboração coletiva da dor e da esperança, invenção de mundo contra a dureza da vida. O povo brasileiro nunca foi apenas vítima da história. Foi também sujeito de combate, de criação e de transformação. Reivindicar a cultura brasileira, o popular, a identidade profunda deste país e a memória de suas lutas não é gesto ornamental. É parte da construção de um projeto revolucionário com rosto, voz e chão.

Em muitos momentos, entre a adaptação ao possível e a impotência diante do necessário, a esquerda se viu impedida de sustentar uma estratégia de transformação à altura do país. É justamente por isso que nosso tempo exige elaboração, coragem e reorganização.

Somos herdeiros dessa história. Herdeiros das grandes lutas da esquerda brasileira, das vitórias que ampliaram horizontes e também das derrotas, dos impasses, das acomodações e das traições das elites que interromperam caminhos de transformação. Assumimos essa herança não como repetição, mas como tarefa. Herdar não é copiar. Herdar é responder ao que ficou em aberto. Herdar é reconhecer que a história da esquerda brasileira foi atravessada tanto por ousadias extraordinárias quanto por limites profundos. Em muitos momentos, entre a adaptação ao possível e a impotência diante do necessário, a esquerda se viu impedida de sustentar uma estratégia de transformação à altura do país. É justamente por isso que nosso tempo exige elaboração, coragem e reorganização.

A derrota eleitoral do bolsonarismo não significou a derrota histórica da extrema direita. O ódio social que ela mobilizou continua vivo, organizado e enraizado em parcelas da sociedade, das instituições e das classes dominantes. A violência política, a guerra cultural reacionária, o moralismo autoritário, a militarização da vida e o ataque permanente a direitos continuam em curso. O fascismo contemporâneo não é apenas uma ameaça externa. Ele disputa consciências, formas de sentir e horizontes de pertencimento. Combatê-lo exige mais do que resistência defensiva. Exige reconstruir força social, politização popular, capacidade de mobilização e confiança histórica no campo da esquerda.

Somos parte de uma geração forjada nesse combate. Uma geração anticapitalista, anti-imperialista, antifascista, feminista, antirracista, antiLGBTóbica, anticapacitista, anti-etarista, ecossocialista, antiproibicionista e antimanicomial, comprometida com a liberdade, com a igualdade e com a emancipação humana. Uma geração que aprendeu, no interior das lutas do nosso tempo, que não há saída individual diante da barbárie e que o futuro só poderá ser defendido como obra coletiva. Trazemos conosco a memória daqueles que vieram antes, mas também a consciência de que a nossa época exige mais do que memória. Exige a coragem de voltar a dizer futuro quando o mundo quer nos impor apenas medo. Exige esperança, não como consolo, mas como posição de combate. Exige organização, não como fetiche, mas como condição concreta da transformação.

É desse lugar que afirmamos nosso compromisso com a unidade. Não uma unidade vazia, feita de silêncios, acomodações e rebaixamento político. Não uma unidade sem nervo, incapaz de enfrentar o inimigo principal e de elevar o nível de consciência da nossa classe. A unidade que defendemos é ampla porque compreende a dimensão histórica da tarefa, e é combativa porque sabe que sem conflito real não há mudança real. Queremos a unidade das esquerdas, dos movimentos, das organizações populares, das juventudes, das mulheres, do povo negro, dos povos indígenas, das LGBTI, das pessoas com deficiência, dos antiproibicionistas e antimanicomiais, das trabalhadoras e dos trabalhadores, de todas as idades de todos aqueles e aquelas que sabem que este país não será transformado sem luta. Unidade para enfrentar a extrema direita, o imperialismo, o capital financeiro, o latifúndio, o colonialismo e todas as formas de opressão. Unidade para fazer da indignação força organizada e da força organizada possibilidade histórica.

A luta contra o imperialismo, que tem demonstrado faces crueis na Palestina, na Venezuela e em Cuba, por exemplo, torna-se ainda mais central para a nossa organização, que deve se orientar pela solidariedade e pelos princípios de um internacionalismo ativo, em movimento e que se posiciona ao lado dos povos oprimidos do mundo.

A luta contra o imperialismo, que tem demonstrado faces crueis na Palestina, na Venezuela e em Cuba, por exemplo, torna-se ainda mais central para a nossa organização, que deve se orientar pela solidariedade e pelos princípios de um internacionalismo ativo, em movimento e que se posiciona ao lado dos povos oprimidos do mundo.

É nesse cenário que afirmamos o papel do PSOL como partido necessário deste tempo. O PSOL é uma das expressões mais importantes da disposição para a unidade contra a extrema direita e para a reorganização da esquerda brasileira nas últimas décadas. Sua existência carrega esse profundo compromisso antifascista e uma crítica aos limites de um ciclo político que, em dado momento, perdeu a capacidade de sustentar um horizonte de transformação estrutural. O partido surgiu da recusa à adaptação e da necessidade de manter viva, no interior da esquerda brasileira, a perspectiva de combate, radicalidade e independência de classe. O partido cresceu nas brechas e oportunidades que se abriram mesmo em uma situação política defensiva. Essas seguem sendo tarefas do presente.

É por isso que o momento exige, no interior do PSOL, uma organização revolucionária comprometida com as grandes transformações de um Brasil fraturado e desigual. Uma organização que tome a sério a tarefa de apresentar à classe trabalhadora e à parcela mais avançada do povo um instrumento político mobilizador, combativo, organizado e politizado. Uma organização capaz de disputar rumos, formar quadros, elaborar estratégia, produzir síntese política e ligar as batalhas imediatas a um projeto histórico. Uma organização a serviço da luta pelo poder, da formação de consciência crítica pela esquerda, do trabalho social duradouro e da construção de poder popular. É dessa necessidade que nasce a Semear.

Reivindicamos uma perspectiva leninista no sentido mais vivo e mais exigente da palavra. Não como dogma, fórmula congelada ou repetição de um vocabulário esvaziado, mas como método de organização, leitura da realidade e estratégia de poder.

Reivindicamos uma perspectiva leninista no sentido mais vivo e mais exigente da palavra. Não como dogma, fórmula congelada ou repetição de um vocabulário esvaziado, mas como método de organização, leitura da realidade e estratégia de poder. Uma política revolucionária exige análise concreta da situação concreta, disciplina militante, organicidade, ligação profunda com a classe trabalhadora e capacidade de transformar indignação difusa em ação coletiva. Exige saber que não há mudança estrutural sem força organizada, não há força organizada sem direção política e não há direção política sem um projeto histórico à altura da nossa época.

Esse projeto não pode ser abstrato nem importado. Ele precisa nascer da experiência brasileira, da luta latino-americana e da resistência dos povos contra a opressão, a dependência e a espoliação. Somos parte da tradição anti-imperialista do continente, da memória das revoluções, dos levantes populares, dos processos de libertação e das experiências que enfrentaram a submissão aos centros do capital mundial. O Brasil não encontrará um caminho soberano, democrático e popular sem romper com as formas de subordinação que o imperialismo impõe econômica, militar, cultural e simbolicamente. Ser anti-imperialista, para nós, é defender a soberania popular, os bens naturais, a autodeterminação dos povos e a capacidade de construir um destino coletivo fora das rédeas do mercado global e das oligarquias que dele se alimentam.

A luta de classes segue sendo o centro da vida social, ainda que o capitalismo contemporâneo tenha fragmentado suas formas de manifestação.

A luta de classes segue sendo o centro da vida social, ainda que o capitalismo contemporâneo tenha fragmentado suas formas de manifestação. A classe trabalhadora de hoje é ampla, heterogênea, precarizada, racializada, feminizada, tem orientação sexual e identidade de gênero, dispersa por novas formas de exploração e abandono. Ela está nas fábricas, nos aplicativos, nas escolas, nos hospitais, no comércio, nas universidades, no campo, nas periferias, no trabalho doméstico, na informalidade, na juventude sem perspectiva e na multidão dos que sustentam o mundo sem poder decidir seus rumos. Organizar essa classe exige compreender sua composição real, suas dores, suas linguagens, suas experiências e suas formas de resistência. Exige também reconhecer que não haverá política revolucionária no Brasil sem enfrentar de maneira central o racismo, o patriarcado, a LGBTIfobia, capacitismo, o etarismo, o proibicionismo e as lógicas manicomiais e todas as estruturas que organizam a divisão e a hierarquia no interior da própria classe.

Por isso afirmamos, sem hesitação, nosso caráter classista, feminista, sexodiverso, antirracista e radicalmente comprometido com o combate a todas as formas de opressão. Não porque somamos causas em um catálogo moral, mas porque entendemos que o capitalismo brasileiro se reproduz justamente pela articulação entre exploração econômica, violência racial, dominação patriarcal e destruição colonial dos territórios e das vidas. O projeto de emancipação que defendemos só pode existir como transformação integral. Ou ele destrói as estruturas que produzem desigualdade, humilhação e violência, ou será apenas adaptação com outro nome.

Queremos construir uma organização à altura desse desafio. (…) Não uma vanguarda autoproclamada e separada do povo, mas uma força que assume responsabilidades, que organiza, que escuta, que aprende, que arrisca, que formula e que se compromete com as tarefas reais do tempo histórico.

Queremos construir uma organização à altura desse desafio. Uma organização com densidade teórica, capacidade de formulação, organicidade militante e vocação popular. Uma organização que fale com a parcela mais avançada da classe e, ao mesmo tempo, trabalhe para ampliar esse campo, formando novas lideranças, reorganizando territórios, disputando valores e culturas políticas, criando instrumentos de comunicação, formação e ação. Uma organização que se reconheça como parte consciente de um processo maior. Não uma vanguarda autoproclamada e separada do povo, mas uma força que assume responsabilidades, que organiza, que escuta, que aprende, que arrisca, que formula e que se compromete com as tarefas reais do tempo histórico.

Sabemos que não partimos do zero. Partimos de acúmulos, experiências, erros, derrotas, intuições, insurgências e resistências. Partimos da convicção de que o futuro não será oferecido a ninguém. Ele precisará ser conquistado. Em um mundo que tenta reduzir a política à gestão da ruína, afirmar um projeto revolucionário é voltar a dizer que a história permanece aberta. É recusar a administração resignada do desastre. É declarar que a vida pode ser reorganizada sobre outras bases. É insistir que o comum, o popular, a igualdade, a liberdade e a dignidade ainda podem deixar de ser promessa interrompida para se tornarem forma concreta de existência.

Fundamos esta organização porque acreditamos que a esquerda brasileira precisa voltar a se pensar como força histórica. Precisa reencontrar a coragem de organizar, a paciência de formar, a ousadia de disputar consciências e a confiança de falar em transformação sem pedir desculpas. Precisa voltar a oferecer ao povo não apenas proteção diante do desastre, mas um caminho. Não apenas resistência diante da barbárie, mas futuro. Não apenas denúncia, mas construção. Não apenas memória das lutas, mas capacidade de fazê-las renascer em novas formas, com novos sujeitos, novas linguagens e a mesma fidelidade aos de baixo.

Nós estamos aqui por isso. (…) Para fazer do PSOL um instrumento cada vez mais enraizado, mobilizador e combativo. Para construir, no interior da esquerda e junto ao povo brasileiro, uma alternativa revolucionária que esteja à altura da crise e da esperança.

Nós estamos aqui por isso. Para ajudar a abrir esse tempo. Para fazer do PSOL um instrumento cada vez mais enraizado, mobilizador e combativo. Para construir, no interior da esquerda e junto ao povo brasileiro, uma alternativa revolucionária que esteja à altura da crise e da esperança. Para afirmar que o Brasil não está condenado à violência das elites, à repetição da dependência, ao autoritarismo dos reacionários e à devastação do capital. Para dizer que o futuro ainda pode ser arrancado das mãos daqueles que o tratam como mercadoria ou privilégio.

É por tudo isso que fundamos esta organização. Não para existir à margem do tempo, mas para disputá-lo. Não para administrar o possível, mas para alargar os limites daquilo que o povo brasileiro pode sonhar, organizar e conquistar. Fundamos esta organização porque recusamos a naturalização da barbárie e porque seguimos acreditando que a história não pertence aos vencedores de agora, mas àqueles e àquelas que têm coragem de transformá-la.

Somos parte de uma geração chamada a enfrentar tarefas grandes. Reorganizar a esquerda, reconstruir a esperança coletiva, derrotar a extrema direita, enfrentar o poder do capital, defender a vida diante da devastação climática, restituir ao povo a confiança em sua própria força e recolocar, no coração do Brasil, a possibilidade de um futuro emancipado. Nada disso será simples. Nada disso será dado. Tudo isso exigirá trabalho político, firmeza estratégica, coragem militante, enraizamento popular e generosidade histórica.

Mas é justamente porque o tempo é duro que a nossa tarefa se torna ainda mais necessária. Quando o medo pretende governar a imaginação, cabe a nós defender a esperança como força material. Quando o capital transforma a vida em exaustão, cabe a nós afirmar que o mundo pode ser reorganizado por outros valores, outras prioridades e outras relações. Quando a extrema direita quer sequestrar a linguagem do povo, cabe a nós devolver à política sua coragem, sua verdade e sua capacidade de nomear o futuro.

Fundamos esta organização para ser parte consciente dessa travessia. Para ajudar a fazer do PSOL um instrumento vivo das lutas do nosso povo. Para ligar teoria e combate, memória e criação, organização e horizonte histórico. Para sustentar, no interior da esquerda brasileira, uma perspectiva revolucionária, popular, enraizada, anti-imperialista, antifascista, anti-etarista, feminista, antirracista, LGBTI, anticapacitista,antiproibicionista e antimanicomial, ecossocialista e radicalmente comprometida com a emancipação humana.

Não chegamos para aceitar o mundo tal como ele é. Chegamos para tomar parte na sua transformação. Com a força dos que vieram antes, com a coragem dos que lutam agora e com a responsabilidade diante dos que virão, afirmamos que o futuro segue em disputa. E que haverá, no Brasil, quem lute para que ele pertença ao povo.

Semear é apostar na formação, na luta, na coragem, na consciência e na construção de um instrumento coletivo capaz de florescer em meio às ruínas do presente. Semear é fazer da esperança uma prática militante.

Semear é isso. É recusar a esterilidade política do nosso tempo e escolher, mesmo sob a dureza da conjuntura, o trabalho paciente e radical de lançar sementes no chão da história. Semear é acreditar que nenhuma derrota é definitiva quando há povo organizado, memória viva e horizonte. Semear é apostar na formação, na luta, na coragem, na consciência e na construção de um instrumento coletivo capaz de florescer em meio às ruínas do presente. Semear é fazer da esperança uma prática militante.

É esse nome que escolhemos. Porque não viemos apenas resistir ao deserto. Viemos preparar a chuva, arar a terra e abrir caminho para o que ainda pode nascer. Viemos semear o futuro.

>> Leia também: Tecendo a manhã Manifesto por uma nova organização ecossocialista

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