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A Inteligência Artificial está tornando a guerra ainda mais brutal

por admsocialista
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Os Estados Unidos estão empregando a inteligência artificial (IA) em sua guerra contra o Irã [1]. As forças armadas afirmam que a “variedade” de sistemas de IA em uso é dedicada à análise dos dados, sendo empregados como ferramentas e não como agentes. O chefe do Comando Central estadunidense, Brad Cooper, afirma que os sistemas de IA auxiliam as forças armadas, permitindo-lhes “processar enormes quantidades de dados em segundos, de modo que os nossos líderes possam filtrar o essencial do supérfluo e tomar decisões mais inteligentes antes mesmo que o inimigo possa reagir”.

A IA acelera o ritmo da identificação de alvos e dos ataques e, por conseguinte, também o ritmo da guerra, morte, destruição e tudo aquilo que daí decorre. Cooper insiste que a decisão final cabe aos seres humanos. Esta afirmação é menos tranquilizadora de quanto deveria ser. Um relatório recente [2] revela que “os alvos da Operação Epic Fury foram identificados com o auxílio do Maven Smart System da National Geospatial-Intelligence Agency, que integra dados de vigilância e inteligência, entre outros, e pode apresentar as informações em um painel de controle para auxiliar as autoridades em seu processo de tomada de decisão”.

Todavia, somos informados de que as ferramentas de IA não “criam explicitamente” alvos; elas meramente “identificam potenciais pontos de interesse para a inteligência militar”. É como dizer que a informação não influencia as decisões, como se a inteligência apresentada a um comandante não tivesse nada a ver com o local onde um ataque é ordenado.

Se o bombardeio em 28 de fevereiro da escola primária Shajarah Tayyebeh no Irã foi um resultado de uma ferramenta da IA que “integrou” informações antigas de inteligência militar no sistema de gestão da Maven, isso significa que a IA de fato moldou a “decisão final”, supostamente humana. Certamente, a garantia tranquilizadora de Cooper segundo a qual o pessoal militar humano ainda está no comando pode até ser verdadeira. Todavia, a integração da IA na estrutura dos sistemas de alvos e a ação baseada em suas recomendações equivale a um processo de tomada de decisão militar guiado pela IA, por mais que os seres humanos possam ainda puxar o gatilho.

Quando a guerra chegou à televisão

A implantação de sistemas de IA na mais recente guerra estadunidense pode relembrar a alguns a Guerra do Golfo de 1990-1991. Talvez esse conflito não seja considerado nos livros de história como um evento de grande relevância por si só, mas foi uma guerra que assistimos na televisão ao vivo, com as telas iluminadas em verde e pontuados por repentinas explosões de luz. Foi transmitida pela CNN com cobertura 24 horas por dia. No início dos anos de 1990, novas tecnologias e formas de agir tanto na guerra quanto nas telecomunicações significavam que algo havia mudado.

A guerra foi transformada em um fenômeno mais distante e desumanizado, tanto na sua execução – com mísseis de cruzeiro lançados a centenas de quilômetros de distância – quanto na sua percepção pelo público, com tudo sendo exibido quase como se fosse uma cena de um videogame. Tinha-se a sensação de que não havia mais como voltar atrás e que, o que quer que acontecesse, tratava-se de uma viagem por uma estrada sem possibilidade de retorno.

Em “A era dos extremos”, o historiador Eric Hobsbawm advertia que, no século XX, as modernas tecnologias bélicas e os sistemas burocráticos que sustentavam os conflitos em grande escala haviam transformado fundamentalmente a guerra, tornando possível uma guerra total aterrorizante que antes não poderia existir sem o poder da distância. Embora o objetivo da distância na guerra seja explorar uma vantagem estratégica e tática que equivale efetivamente a um abrigo – ou melhor posicionamento – e uma surpresa, o efeito final é a separação.

Se a violência, mesmo a violência de massa, pode ser uma ação à distância com o agente afastado das consequências imediatas, viscerais e corporais das suas ações, então a violência se torna impessoal e irreal, até mesmo virtual – como jogar um videogame. Aperte o gatilho, incline o controle para cima e siga com seu dia, enquanto os pixels desaparecem na tela. Em casa na hora do jantar, bem a tempo de algumas partidas de Call of Duty.

Sempre fieis, como O Exterminador do Futuro

Atualmente, a IA na guerra é utilizada para analisar rapidamente as informações e auxiliar os seres humanos na definição de alvos. Amanhã, pode ser empregada de maneiras que hoje nem sequer conseguimos imaginar ou que tendemos a descartar como uma ameaça secundária ou terciária – mais uma fantasia paranoica inspirada em “O Exterminador do Futuro” do que um perigo real e iminente. A ameaça imediata é a mesma em ambos os casos: humanos se desumanizando.

As ferramentas do ofício são máquinas que usamos para nos tornarmos melhores em matar, do tipo que nos torna livres do incômodo que atormentou aqueles que cometeram violência ao longo da história humana: era preciso estar perto para fazê-lo, perto o suficiente para ver as luzes se apagarem. A IA não é, portanto, apenas uma ferramenta para classificar, mas também um instrumento que cria distância, literal e figurada, entre o operador e os condenados.

Se o século passado nos trouxe a capacidade de apertar um botão para lançar uma bomba, este nos permitirá apertar um botão para que um computador nos diga onde lançá-la. É impossível estar mais distante da destruição do que isso. Essa mudança é igualmente horrível e aterrorizadora, mas trata-se menos de um novo modo de agir e mais do próximo passo lógico rumo a uma destruição completamente digitalizada e desumanizada, do tipo previsto há décadas pelos mais perspicazes. Hobsbawn viu a transformação da guerra do século XX uma “nova impessoalidade” do tipo que “transformou o matar e mutilar em consequência remota do apertar um botão ou do acionamento de uma alavanca” e “tornou invisíveis suas vítimas, ao contrário das pessoas estripadas pelas baionetas ou vistas pela mira das armas de fogo”. A IA não muda a lógica nem o efeito da guerra impessoal, mas reforça a primeira e amplifica a segunda.

Doutor IA, estranho amor

As consequências de um novo nível de distanciamento serão sombrias de um modo inimaginável. Ou talvez possamos imaginá-las com muita clareza. Ao escrever sobre a Segunda Guerra Mundial, Hobsbawm destaca que, com os bombardeios sobrevoando, aqueles que estavam lá embaixo “não eram pessoas destinadas a serem queimadas e estripadas, mas alvos”. A natureza impessoal da distância significava que “os jovens mansos, que certamente não teriam desejado cravar uma baioneta na barriga de uma moça grávida camponesa, podiam com muito mais facilidade lançar bombas de alto potencial explosivo sobre Londres ou Berlim, ou a bomba atômica em Nagasaki”.

O fato de que chats comerciais com IA foram considerados capazes de escolher a guerra nuclear [3] em praticamente todos os casos em “situações de crise” vira notícia porque pensamos no que um senhor dos robôs poderia fazer contra – ou por – nós em situações extremas, sem um herói do tipo dos games de guerra que convença a máquina a desistir. Mais perto de nós, a ameaça imediata e crescente não são as máquinas, mas, como sempre, nós mesmos – e o que fazemos com as máquinas ou aquilo do qual nos eximimos graças a elas.

A distância que a IA coloca entre a mente humana e a decisão de destruir deve ser o que mais nos aterroriza. Pode não haver limite para os horrores que se seguem. Seja o que for, a história da humanidade é também a história do uso da tecnologia para nos destruirmos uns aos outros. Hoje somos mestres consumados nessa arte — não apenas na eficiência implacável do apagamento físico, mas nas maneiras como tornamos essa destruição mais fácil de dirigir, mais fácil de justificar e mais fácil de conviver antes, durante e depois do fato.

Como Hobsbawm alertou sobre o “século curto” que se estendeu de 1914 a 1991: “As maiores crueldades do nosso século foram as crueldades impessoais de decisões remotas, de sistemas e rotinas, especialmente quando podiam ser justificadas como necessidades operacionais lamentáveis.” Hobsbawm estava certo ao identificar a crueldade do massacre industrial do século curto. A questão para nós é como será esse massacre quando essa crueldade for ainda mais intensificada pela nova distância resultante da tomada de decisões mediada pela IA.

Traduzido de https://jacobin.com/2026/03/artificial-intelligence-us-war-military, por Paulo Duque, do Eol

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