Ontem, segundo dia da trégua anunciada com estardalhaço por Trump, as forças de Israel mataram seis palestinos, na Faixa de Gaza. Para a ação violenta de Israel, Netanyahu deu sua “justificativa”. Os palestinos assassinados estavam “avançando” sobre o limite estabelecido para a retirada dos militares. Como não recuaram, a força decidiu “eliminar a ameaça”.
O ataque de ontem não deixa dúvida sobre a fragilidade do “acordo de paz” selado entre Netanyahu e o Hamas, com o apoio do Egito, Katar, Turquia e EUA. Trump, como se esperava, fez do “fim” provisório do genocídio praticado por Israel seu momento de marketing político. Não sejamos ingênuos.
A última pesquisa indica que 54% dos americanos acham que Trump está no caminho errado na condução da economia americana. Há meses, ele está entre 35% e 40% entre os que aprovam seu comando no país, e apenas 28% acham que ele vai bem na gestão do custo de vida.
É disso que se trata. Trump nunca esteve preocupado com a população de Gaza. Há menos de um mês, propôs que naquele cenário deslumbrante entre a costa leste do Mar Mediterrâneo – e o Mar Morto e o rio Jordão, fosse construída a “Riviera do Oriente Médio”. Com a devida expulsão dos seus 5 milhões de habitantes. “Limpeza étnica”, insinuou.
É disso que se trata. Não houve guerra entre dois países. Houve massacre de uma população desarmada, acuada, faminta. A violência de Israel contra a Palestina desde 2023 produziu o pior ataque contra o povo palestino em toda a sua história.
O Ministério da Saúde de Gaza, denuncia que entre 7 de outubro de 2023 e 7 de outubro de 2025, Israel matou 67.173 palestinos:
20.179 crianças (30 %),
10.427 mulheres (16 %),
4.813 idosos (7 %)
31.754 homens (47 %)
169.780 feridos
565 trabalhadores humanitários
376 funcionários da ONU,
254 jornalistas.
Milhares permanecem sob os escombros.
Os reféns israelenses vivos foram devolvidos as suas família, 20. Os corpos de outros irão aos poucos. Os reféns palestinos – a imprensa insiste em chamá-los de prisioneiros – também estão voltando aos poucos. Mais de dois mil.
A dor persistirá por décadas. “Israel nos torturou dia e noite, até esta manhã (ontem, segunda, dia 13). Usaram todos os tipos de tortura contra nós, desde psicológica até física. Não nos deixaram dormir, comer ou beber, e nos disseram que tinham matado nossos filhos.” disse, aos prantos, Shadi Abu Saidu, jornalista da TV Al Jazeera, sequestrado por Israel.
Carta de Adolfo Pérez Esquivel a Corina Machado
“De Nobel para Nobel”, Esquivel fala por nós.
No dia em que a Academia sueca anunciou o nome de Corina Machado como vencedora do Prêmio Nobel da Paz 2025, Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz de 1980, reagiu com indignação. Nessa segunda, enviou carta aberta a Corina. E lamentou: “Você recorre ao pior quando pede que os Estados Unidos invadam a Venezuela”.
“Surpreende-me como você se apega aos Estados Unidos, deve saber que eles não têm aliados, nem amigos, apenas interesses”. A paz, disse o militante argentino, “se constrói dia a dia e devemos ser coerentes entre o que dizemos e o que fazemos. Aos 94 anos, continuo sendo um aprendiz da vida e me preocupam sua postura e suas decisões políticas”.
Esquivel condenou Corina por dedicar seu prêmio a Donald Trump. “Preocupa-me não ter dedicado ao seu povo. Dedicou ao seu opressor. Você precisa saber onde está posicionada, se é mais uma peça do colonialismo dos EUA, submetida aos seus interesses de dominação, o que nunca poderá ser para o bem de seu povo”.
Nada mais precisa ser dito. Só lembrar que Corina teve seu nome indicado por Marco Rubio, secretário do governo dos EUA, que está à direita de Trump. Tantos outros poderiam ter sido premiados. Tantos voluntários em meio a guerras sem fim. A menina Greta Thumberg, corajosa tantas vezes. Há semanas, estava à frente da flotilha que levaria comida à Faixa de Gaza. Foi presa. O prêmio deve passar de US$ 1 milhão. Serviria, por exemplo, para resgatar um pouquinho do que restou da Palestina.
Mirian Guaraciaba é jornalista
