O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), voltou a protagonizar polêmica ao atribuir, no último domingo (16/11/2025), à gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a responsabilidade direta pelas dificuldades financeiras enfrentadas pelo município. Durante uma sequência de postagens nas redes sociais, Abílio afirmou que o governo federal teria “o pior índice de desemprego”, “as maiores taxas inflacionárias” e que “quebrou os Correios”, sustentando um discurso alinhado à sua base bolsonarista.
Contudo, uma análise dos dados oficiais e de informações técnicas disponíveis desmente ponto a ponto as declarações do prefeito.
Ao contrário do alegado por Abílio, o Brasil não enfrenta o pior índice de desemprego, mas justamente o menor desde o início da série histórica.
Segundo reportagem da CNN Brasil, com base em dados do IBGE, o desemprego recuou para 5,8% no segundo trimestre de 2025, atingindo o nível mais baixo já registrado pelo instituto.
O dado é objetivo, mensurável e auditado — e desmonta a narrativa de colapso do mercado de trabalho construída pelo prefeito.
Em outra acusação sem lastro técnico, Abílio afirmou que o país estaria vivendo “as maiores taxas inflacionárias”. No entanto, informações oficiais da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) mostram o oposto.
Segundo boletim divulgado pela Secom, a inflação medida em outubro de 2025 foi a menor para o mês em 27 anos, reforçando um processo de desaceleração iniciado ainda no começo do terceiro trimestre.
Ou seja, longe de enfrentar uma hiperinflação ou descontrole de preços, como sugere o discurso político, o país vive período de estabilidade inflacionária.
Abílio também afirmou que o governo Lula “quebrou os Correios”. Entretanto, como ensina o economista José Kobori, referência nacional em finanças e macroeconomia, a crise dos Correios é estrutural e histórica, não circunstancial.
Kobori explica que:
- a queda progressiva do envio de cartas e serviços tradicionais, substituídos pela comunicação digital, derrubou a principal fonte de receita da estatal;
- o modelo de negócios dos Correios, baseado em serviços monopolizados, se tornou obsoleto diante do avanço de empresas privadas de logística;
- a estatal carrega ineficiências crônicas, acúmulo de passivos e estruturas administrativas infladas, tornando sua recuperação difícil independentemente de quem ocupa o governo federal.
Ou seja, atribuir o colapso financeiro da estatal exclusivamente a uma gestão é ignorar décadas de mudanças tecnológicas e falhas no modelo operacional.
A retórica apresentada pelo prefeito de Cuiabá segue um padrão amplamente observado em setores da direita brasileira contemporânea, marcado por simplificação de fenômenos econômicos complexos, descontextualização de dados oficiais e alarmismo político.
Críticos apontam que, ao invés de reconhecer limitações administrativas municipais — que independem de Brasília —, líderes locais recorrem a discursos generalistas para mobilizar a base ideológica e deslocar a responsabilidade.
Esse tipo de abordagem, como analisam cientistas políticos, não contribui para o debate público, tampouco para a compreensão da realidade fiscal enfrentada por capitais como Cuiabá, que dependem de gestão eficiente, planejamento e responsabilidade orçamentária — e não de construções retóricas desvinculadas de fatos.]
Por Herbert Costa
