Casa Mato GrossoAbílio em Dubai: discurso de quem busca desculpas para a própria incompetência

Abílio em Dubai: discurso de quem busca desculpas para a própria incompetência

Em Dubai, Abílio Brunini tenta justificar a ausência de resultados e culpa o governo federal, a criminalidade e a “insegurança jurídica”, enquanto ignora que o verdadeiro problema é sua própria incapacidade administrativa e a distorção moral de quem enaltece uma chacina como política de segurança.

por Da Redação
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O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini, mais uma vez tenta transformar incapacidade administrativa em retórica política. Em recente vídeo gravado em Dubai, onde afirma estar em busca de investimentos para Cuiabá, o prefeito se queixou da suposta “insegurança jurídica”, da criminalidade e da postura do governo federal, apontando esses fatores como os grandes responsáveis por sua dificuldade em atrair investidores estrangeiros.

O discurso, no entanto, soa mais como uma confissão de fracasso do que como um diagnóstico da realidade brasileira.

Desde a redemocratização, o Brasil consolidou um dos sistemas jurídicos mais estáveis da América Latina, com garantias constitucionais expressas ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa — pilares que asseguram segurança jurídica tanto a cidadãos quanto a investidores.

Essa estrutura se mostrou sólida inclusive nos momentos mais críticos da política recente: tanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto o ex-presidente Jair Bolsonaro foram investigados e processados dentro das normas do Estado de Direito, com observância das garantias fundamentais.

O que incomoda Abílio, na verdade, não é a ausência de segurança jurídica, mas o fato de que o sistema legal não se dobra a seus dogmas ideológicos. Sua fala revela mais ressentimento com a decisão de condenação do Bolsonaro do que lucidez.

O prefeito também tentou justificar seu insucesso alegando que “ninguém em Dubai quer investir no Brasil” por causa da criminalidade. Esse argumento, contudo, é falacioso.

Embora seja inegável que metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro enfrentem altos índices de violência urbana, o cenário nacional não se resume a essas duas cidades. Dados mostram que o país continua atraindo capital estrangeiro em ritmo crescente: em 2025, o investimento direto externo aumentou 58% em relação ao ano anterior, e investidores estrangeiros responderam por quase 60% do volume movimentado na Bolsa de Valores (B3). Ou seja, o Brasil segue sendo visto como porto seguro para quem busca retorno financeiro — o que desmente por completo a tese do prefeito.

A tentativa de Abílio de associar sua falta de resultados à imagem do país ganhou contornos ainda mais infelizes quando ele, de forma indireta, enalteceu a operação policial no Rio de Janeiro, realizada nos dias 28 e 29 de outubro, que deixou 132 mortos, entre eles 4 policiais.

O governo federal, sim, repudiou a operação, lembrando que o combate ao crime não pode se converter em chacina. Não se combate crime fazendo mais crimes.

O prefeito, no entanto, classificou a ação como “exemplo de como se deve agir”, deixando evidente sua visão distorcida de justiça. Um cristão autoproclamado que celebra a morte — em especial de pobres, pretos e moradores de favelas — é, no mínimo, um evangélico de fachada.

Nenhuma operação que ceifa vidas inocentes pode ser considerada um sucesso. O êxito no combate ao crime se mede pela eficácia da investigação, pela prisão dos culpados e pela preservação da vida — inclusive a dos próprios policiais, que também tombaram nessa ação.

A morte de 132 pessoas, em sua maioria jovens e periféricas, é tragédia, não troféu.

Entre as 132 pessoas mortas naquela operação, havia não apenas criminosos armados, mas também homens e mulheres inocentes, trabalhadores, pais e mães de família que tiveram o infortúnio de viver na periferia e foram julgados sumariamente pela polícia como “bandidos” apenas por sua cor, condição social ou endereço. Muitos estavam em casa, de chinelo e sem camisa, tentando sobreviver à rotina de violência que o Estado insiste em normalizar. Morreram à toa — vítimas da mesma desigualdade que o poder público deveria combater. A esses, o Estado negou até o direito mais elementar: o de provar sua inocência.

Segundo a lei, mesmo os criminosos, por mais que tenham errado, não perdem o direito à vida nem ao devido julgamento. O Estado Democrático de Direito se distingue do arbítrio exatamente por isso: não cabe ao policial ser juiz e executor. O papel da polícia é prender; o de julgar, cabe ao Poder Judiciário. Quando o Estado mata sem processo, ele não combate o crime — ele o perpetua.

O combate ao crime exige investigação técnica, apreensão de recursos, desarticulação das redes de comando e prisão não apenas dos executores de rua, mas sobretudo de seus financiadores e lideranças, aqueles que operam no alto da cadeia — inclusive quando disfarçados pela alta elite financeira.

Matar alguns combatentes numa chacina urbana não resolve nada: amanhã as lideranças se reorganizam, recrutam mais centenas de jovens vulneráveis e o ciclo recomeça. A segurança pública eficaz age de cima para baixo, atacando as fontes de financiamento, os pontos de logística e o aparato econômico que sustenta o crime organizado, bem como investindo em investigação criminal, cooperação interinstitucional e políticas sociais que tirem os jovens da ponta da cadeia criminosa. Só assim se constrói uma resposta duradoura e que respeite o Estado de Direito.

Ao criticar o governo federal por repudiar o massacre, Abílio Brunini demonstra despreparo moral e político. Sua visão de segurança pública é incompatível com os princípios constitucionais e com qualquer noção moderna de civilidade.

Em vez de se indignar com a morte de inocentes, preferiu indignar-se com quem exige respeito à lei e à vida.

Por fim, o prefeito tenta mascarar sua inoperância sob um discurso de patriotismo e fé, alegando que “defende o Brasil lá fora”. O que se vê, contudo, é o oposto: uma figura pública incapaz de compreender o papel de um gestor em ambiente internacional, que envergonha o país ao fazer da própria incompetência uma narrativa de vitimização. Como bem afirmou o senador Jayme Campos, Abílio foi “apenas passear com dinheiro público” — e agora, sem resultados concretos, busca culpados imaginários para justificar o fracasso.

A verdade é simples: Dubai continua investindo no Brasil, apesar de políticos como Abílio Brunini. O que afasta investidores não é a Constituição, nem o combate à criminalidade com respeito aos direitos humanos — é a falta de preparo de quem deveria representar sua cidade com seriedade e competência.

 

O Cidadão – Herbert Thomann

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