O Governo de Mato Grosso promoveu, nesta semana, a inauguração apressada do Parque Novo Mato Grosso — popularmente apelidado de “Parque dos Bilionários” — mesmo diante do fato incontornável de que o complexo esportivo, destinado ao automobilismo de elite, permanece inacabado. A decisão, que ocorre em pleno contexto pré-eleitoral e coincide com a preparação de Mauro Mendes e da primeira-dama Virgínia Mendes para o pleito de 2026, escancara uma escolha administrativa baseada mais em conveniência política do que em responsabilidade pública.
Enquanto Mato Grosso convive com índices alarmantes que exigiriam prioridade máxima — sendo recordista nacional em feminicídios, com uma educação que amarga resultados entre os piores do país e um sistema de saúde fragilizado e socialmente desmoralizado — o governo estadual direcionou bilhões de reais para erguer um autódromo e todo um parque de lazer orientado a modalidades esportivas elitizadas. A Stock Car, evento de alto custo e voltado para um segmento muito restrito da população, foi tratada como prioridade estratégica, a ponto de mobilizar novas despesas milionárias para sua realização entre os dias 14 e 16 de novembro.
A opção pela inauguração antecipada, mesmo sem que as obras estivessem concluídas, precipitou uma série de improvisações logísticas que, por si só, já colocavam em dúvida a segurança da estrutura e a adequada execução do evento. Sem boxes prontos, as equipes da Stock Car foram obrigadas a alocar veículos e equipamentos sob grandes tendas montadas às pressas. O público também foi direcionado a arquibancadas provisórias, igualmente erguidas de maneira emergencial, restando evidente que nenhuma dessas estruturas se aproximava dos padrões mínimos esperados para um evento esportivo desse porte.
Na noite de 13 de novembro, a fragilidade dessa preparação improvisada foi brutalmente exposta. Uma tempestade, acompanhada por rajadas intensas de vento, atingiu Cuiabá durante os treinos da competição e destruiu tanto as arquibancadas provisórias quanto as tendas que serviam de abrigo para os carros de corrida. As imagens do colapso estrutural circularam rapidamente, revelando veículos danificados, lona e metal retorcidos e trabalhadores em meio aos escombros. Até o momento, há confirmação de pelo menos três pessoas feridas.
A ocorrência evidencia não apenas a falta de planejamento, mas também a ausência de zelo com a segurança de trabalhadores, equipes esportivas e da população. O episódio soma-se a uma série de críticas que já vinham sendo feitas por especialistas, sindicatos e entidades do setor público sobre o uso da máquina estatal para promover inaugurações de caráter eleitoral e eventos de grande visibilidade, enquanto áreas essenciais permanecem subfinanciadas.
O Parque Novo Mato Grosso, que deveria simbolizar modernidade e avanço, transformou-se, no momento de sua apresentação oficial, em um retrato da desconexão entre as prioridades políticas do governo e as necessidades urgentes da sociedade mato-grossense. Em um Estado cuja população enfrenta graves problemas estruturais, a tragédia anunciada da inauguração apressada do autódromo revela uma gestão disposta a privilegiar espetáculo sobre responsabilidade — e publicidade sobre segurança.
À medida que se multiplicam questionamentos jurídicos, administrativos e éticos sobre o episódio, cresce a cobrança por transparência, responsabilização e, sobretudo, por uma reorientação urgente das políticas públicas no Estado de Mato Grosso. O colapso das estruturas provisórias, ocorrido antes mesmo da estreia do evento para o qual todo o esforço governamental foi canalizado, expõe, mais do que uma falha pontual, uma escolha deliberada que coloca interesses eleitorais acima do interesse público.
Por Herbert Costa
