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Legado de Leopoldo II faz princesa belga ter evento cancelado na Bienal de SP

por Guilherme Arandas
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36ª Bienal de São Paulo. Foto: Divulgação

Um impasse diplomático interrompeu um dos debates previstos na Bienal de São Paulo. Segundo a Folha de S. Paulo, o encontro entre a princesa belga Esmeralda e o fotógrafo João Farkas foi cancelado de última hora, após o diretor artístico da mostra, o camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, manifestar objeção à participação da integrante da família real.

Ndikung, que também dirige a Haus der Kulturen der Welt, em Berlim, alegou razões históricas e simbólicas para o veto. Fontes ligadas à organização afirmam que o diretor considerou “inadequada” a presença de Esmeralda devido ao legado de violência colonial associado à Bélgica, especialmente ao rei Leopoldo II, seu tio-bisavô.

Durante o período colonial, o monarca foi responsável por massacres e exploração de populações no Congo, episódio reconhecido como um dos mais brutais da história africana sob dominação europeia. Em mensagens trocadas entre representantes da Bienal e a assessoria da princesa, a fundação expressou preocupação com a repercussão do convite.

Cerca de 80% dos artistas desta edição são originários da diáspora africana, e a presença de uma figura ligada à monarquia belga, ainda que por descendência distante, poderia gerar desconforto entre os participantes. A direção da Bienal reconheceu, no entanto, a trajetória pública de Esmeralda em defesa dos direitos humanos e das causas ambientais.

A princesa é conhecida por seu ativismo em pautas sociais e pela postura crítica em relação ao passado colonial da Bélgica. Mesmo assim, Ndikung teria considerado que a relação familiar com Leopoldo II seria suficiente para causar tensão política no evento.

Princesa Esmeralda. Foto: Divulgação

Outro fator que pesou na decisão foi a exigência protocolar da comitiva real de permitir a presença de seguranças armados. A Bienal de São Paulo tem normas rígidas que proíbem a entrada de qualquer pessoa armada em suas dependências, localizadas no Pavilhão do Ibirapuera, projetado por Oscar Niemeyer.

A instituição informou que não abriria exceções, mesmo diante de um convidado da realeza. Assessores da princesa Esmeralda lamentaram o cancelamento e reforçaram que ela sempre se posicionou contra o legado colonial belga.

Lembraram ainda da amizade de seu pai, o rei Leopoldo III, com lideranças indígenas brasileiras, como o cacique Raoni, e da atuação de Esmeralda na campanha pela retirada de estátuas de Leopoldo II dos espaços públicos da Bélgica.

De acordo com pessoas próximas à organização, o veto não foi comunicado diretamente à princesa, mas a decisão teria sido tomada para “preservar o espírito da mostra”. O cancelamento foi visto como uma tentativa de evitar manifestações políticas durante um evento voltado à arte contemporânea, que nesta edição tem como tema central a resistência cultural de povos africanos e afrodescendentes.

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