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Localizado em Porto Alegre (RS), o Museu da Cultura Hip Hop reúne a força da expressão das ruas manifestadas em grafite, dança, poesia e música. Quem entra no primeiro museu do gênero na América Latina encontra não apenas um espaço de memória e visitação, mas também oficinas e workshops que convidam a participar das expressões artísticas do hip hop, cultura que tem em sua essência a transformação social.
O espaço foi inaugurado em dezembro de 2023 e nasceu do esforço coletivo da comunidade hip hop gaúcha, inspirado no Universal Hip Hop Music, em Nova York (EUA), para imortalizar o patrimônio cultural e conectar antigas e novas gerações. Adaptado à realidade brasileira, une museologia comunitária com geração de trabalho e renda.
O rapper e coordenador da iniciativa, Rafa Rafuagi, conta que o Museu da Cultura Hip Hop, “para além da sua função social cumprida no Estado brasileiro, em defesa do Estado Democrático de Direito”, garante com suas atividades a prática da economia solidária, circular, criativa. “Por que não até do black money? [Uma economia] pensada, projetada e praticada aqui dentro”, complementa.
Rafuagi destaca a alegria com o sucesso da iniciativa e das diferentes atividades oferecidas. “Já são quase 50 mil pessoas que já passaram por aqui, e 570 jovens que já se capacitaram em contraturno escolar, passando pelas oficinas da Casa Arte Sesc – Museu da Cultura Hip Hop RS. Esses jovens se formam em DJ, grafite, MC, breaking e conhecimento.”
Acervo, visitação e atividades
O museu tem um acervo de mais de 3 mil peças e conta com salas de exposições, espaços multiuso para oficinas e para shows, quadra de esportes, biblioteca, estúdio de gravação e até mesmo uma horta agroecológica.
Promove diariamente visitas guiadas ao público e grupos de estudantes. Experiência que para os alunos contribui na realização de atividades dentro da sala de aula.
A professora Verônica Balbueno acompanhou uma turma da escola onde leciona e recomenda a visita. “Foi comentado dentro de sala de aula, a gente fez um preparo para eles sobre a cultura. E muitos deles já conheciam, até se propuseram a falar. Então, para eles está sendo uma novidade e estão curtindo muito. Indico pra todo mundo trazer os seus alunos e filhos, familiares também, porque é muito rica a cultura.”
A integração com a comunidade e a transformação social estão entre os objetivos do museu, como afirma o museólogo da iniciativa, Fulvio Dickel. “O objetivo do museu é justamente esse: propiciar aos nossos visitantes também a experimentação através das oficinas, dos workshops e não somente narrar a história. Claro, contemplar o passado, os pioneiros, mas também fomentar o futuro. A gente vê o hip-hop cada vez progredindo, cada vez se transformando e cada vez somando mais na transformação social.”
Mostras longas e de curta duração
Além de exposições permanentes, o museu promove mostras mais curtas. O coordenador pedagógico Rafael Mautoni afirma que a ideia é democratizar o espaço.
“Boa parte do museu são exposições de longa duração, ou seja, essa exposição que a gente está aqui dos cinco elementos do hip hop, a gente tem a exposição das manas e outras exposições aqui que são permanentes. Já a sala Hip-Hop Criado na Rua, ela é uma sala de curta duração. Então, de três em três meses, a gente troca a exposição. Por que isso? Porque nessa busca por acervo e por contar a história do hip-hop do Rio Grande do Sul, a gente recebeu muito acervo e a gente não tem como apresentar tudo de uma vez só”, explica.
A poesia das ruas
Slam do Vida – Poesia no Sul é a exposição temporária inaugurada no final de setembro. Reúne o trabalho de mais de 90 poetas que passaram pelo primeiro campeonato regional de poesia falada ligado a um Ponto de Cultura, o Centro Vida, do extremo da Zona Norte de Porto Alegre.
A poeta Karin Santiago declamou em público pela primeira vez na estreia do Slam do Vida, em 2022. Hoje, integra o acervo da exposição e reconhece o valor da arte na sua trajetória.
“A poesia me salva, mais de uma vez. Eu acredito que seja assim também para grande parte dos poetas. A gente está consumido pela rotina e precisa, às vezes, de um suspiro, um pouquinho de doçura para a vida. E é isso que a poesia me traz. Além, especialmente, dos slams, da troca de afeto, porque eu vejo a poesia como um pretexto para a gente se encontrar e trocar afeto”, conta.
A poesia também mudou a vida do campeão gaúcho de Slam 2024, DaNova MC, que se prepara para a etapa nacional em novembro, a Festa Literária das Periferias, no Rio de Janeiro. Hoje ele é mediador de um dos cinco elementos do hip hop no museu: o conhecimento, que une os demais para produzir consciência e transformar a vida das pessoas.
“O hip hop tem cinco elementos, que são o grafite, o MC, o DJ, o break dance e o quinto elemento que é o conhecimento, que é o que eu atuo”, explica DaNova. “O conhecimento não é nada mais do que a gente conseguir estratégias para multiplicar a cultura, multiplicar o hip hop para a juventude ou na idade mais avançada, que por muitas vezes teve o hip hop como marginalizado, como criminalizado.”
Estúdio de gravação
O museu conta ainda com um estúdio que já recebeu gravações de 50 artistas locais. O estúdio DJ Only J homenageia o artista assassinado em 2018, que também foi uma inspiração para a criação do museu. O rapper NitroDi é o responsável pelo estúdio e celebra a iniciativa.
“A gente tá colocando o nosso conhecimento aqui, através de alguns editais que a gente abre também, o pessoal vem gravar de graça. O intuito do estúdio é oferecer esse serviço completamente de graça. E tem toda a parte de assessoria também, não é só gravar, a gente grava a música, mas também ajuda o pessoal a lançar a música, né? Contar novas histórias, novas músicas, novos videoclipes, enfim… Tá sendo bem animadora essa troca que eu tô fazendo junto com os artistas”, relata NitroDi.
Parceria firmada na Colômbia
Resultado de esforços coletivos, parcerias e com patrocínio da Petrobras e da Caixa Econômica Federal, o museu não para de ampliar laços. Recentemente, Rafa Rafuiagi foi até a Colômbia, país com uma forte cultura hip hop, e retornou com novidades.
“Fui pro Encontro de Cidades e Culturas a convite do Santiago Trujillo, que é o Secretário de Cultura de Bogotá, que não só me convidou pra ir compartilhar a nossa prática do museu, mas pra junto anunciarmos a primeira casa do mundo binacional da cultura hip-hop entre Brasil e Colômbia”, conta.
Segundo Rafuiagi, o espaço vai ficar no bairro Engativá, próximo ao Aeroporto Eldorado, na cidade de Bogotá. “A casa vai proporcionar intercâmbios e residências artísticas entre brasileiros e colombianos”, afirma.
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