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Não preciso de polícia nova no Rio, disse Castro meses antes da chacina que deixou 64 mortos

por Augusto de Sousa
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Cláudio Castro em entrevista ao Metrópoles. Foto: Vinicius Schmidt/Metrópoles

Meses antes da maior chacina da história do Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro (PL) afirmou que o estado não precisava de reforço federal na segurança pública. “Eu não preciso que ninguém entre com polícia nova no Rio. A minha polícia está estruturada. Eu preciso que os outros entes façam a sua parte para que o meu trabalho dê resultado”, declarou o governador bolsonarista em entrevista ao portal Metrópoles, publicada em março.

A fala diverge do discurso adotado após a megaoperação que deixou 64 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, na última terça-feira (28). Depois do massacre, Castro passou a cobrar a presença das Forças Armadas e a responsabilizar o governo federal por suposta falta de colaboração.

“Tivemos pedidos negados três vezes: para emprestar o blindado, tinha que ter GLO, e o presidente [Lula] é contra a GLO. Cada dia uma razão para não estar colaborando”, disse.

O bolsonarista também foi contra a PEC da Segurança Pública, proposta pelo governo Lula (PT), que previa uma integração maior entre as seguranças nacionais e estaduais. Em resposta à acusação de Castro, o Palácio do Planalto desmentiu o governador com um comunicado oficial.

Apesar das críticas, o próprio governador admitiu que “não foram pedidas forças federais”. O Ministério da Justiça rebateu as declarações e informou que todos os pedidos de apoio feitos pelo estado foram atendidos, incluindo o envio da Força Nacional e a realização de 178 operações da Polícia Federal no Rio apenas neste ano, sendo 24 delas voltadas ao combate ao tráfico de drogas e armas.

Veja a entrevista de Castro em março:

A chacina

O governo do Rio de Janeiro divulgou que a megaoperação policial deflagrada na terça-feira (28), nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, foi resultado de uma investigação que se estendeu por mais de um ano e identificou 94 integrantes do Comando Vermelho.

Segundo a Polícia Civil, os criminosos são suspeitos de envolvimento em homicídios, tráfico de drogas, roubo de veículos e outros crimes, e usavam as comunidades como refúgio.

As 27 favelas que compõem os dois complexos estão situadas em uma região estratégica da cidade, próximas à Linha Vermelha, via que liga o Centro do Rio à Baixada Fluminense e ao Aeroporto Internacional do Galeão, e à Linha Amarela, que conecta a Barra da Tijuca à Ilha do Governador. O terreno montanhoso, cercado por áreas de mata, favorece as fugas e dificulta o acesso das forças de segurança.

De acordo com as investigações, as ordens para a tomada de territórios e coordenação das ações criminosas no estado partem de dois chefes da facção: Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, preso em um presídio federal, e Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, que está foragido. Doca possui 269 anotações criminais e 26 mandados de prisão em aberto.

Na terça-feira, o Disque-Denúncia anunciou o aumento da recompensa por informações que levem à prisão de Doca: de R$ 1 mil para R$ 100 mil. O valor, considerado excepcional, só havia sido oferecido uma vez, pela captura de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.

A operação, que mobilizou milhares de agentes e resultou na morte de 64 pessoas, é considerada a mais letal da história do estado.

Porém, na madrugada desta quarta-feira (29), moradores do Complexo da Penha levaram cerca de 50 corpos até a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas, uma das principais da região. O gesto, segundo relatos, teve o objetivo de facilitar o reconhecimento das vítimas por familiares.

O governo do Rio havia informado que 60 criminosos morreram nos confrontos e que quatro policiais também foram mortos. No entanto, o secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, afirmou que os corpos levados à praça não estão contabilizados nesse número.

“Haverá uma perícia para confirmar se há relação entre essas mortes e a operação”, declarou o secretário. Caso a relação seja confirmada, o total de mortos poderá ultrapassar 100.

Segundo o G1, os corpos encontrados na Praça São Lucas teriam sido retirados de uma área de mata conhecida como Vacaria, na Serra da Misericórdia, onde ocorreram intensos tiroteios entre policiais e traficantes. Moradores relataram que ainda há mortos espalhados pelo alto do morro.

O ativista Raull Santiago, que participou da retirada de corpos da região, descreveu o cenário como inédito. “Em 36 anos de favela, passando por várias operações e chacinas, eu nunca vi nada parecido com o que estou vendo hoje. É algo novo. Brutal e violento num nível desconhecido”, afirmou.

Após o traslado, a Polícia Civil informou que o reconhecimento oficial das vítimas será feito no prédio do Detran, ao lado do Instituto Médico-Legal (IML), a partir das 8h. O acesso ao IML será restrito à Polícia Civil e ao Ministério Público, responsáveis pelos exames e necropsias relacionadas à operação. Os demais atendimentos ocorrerão no IML de Niterói.

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