O episódio envolvendo a cantora Jojo Todynho e a funcionária de um restaurante é mais um retrato nítido do modus operandi do bolsonarismo, que transformou o ato de intimidar, perseguir e constranger trabalhadores em uma espécie de esporte político. A lógica é simples e perversa: qualquer cidadão que ouse divergir, especialmente se for pobre, preto ou mulher, vira alvo de um linchamento moral e virtual, com o objetivo de silenciar a crítica e reforçar a ideia de que o “direito de opinião” só vale para quem pensa igual.
Esse comportamento é típico do autoritarismo travestido de moralismo, que tenta impor medo às vozes dissonantes. O bolsonarismo, desde seu surgimento, alimenta uma cultura de delação e retaliação, em que se estimula o patrão a punir o funcionário que ousa pensar diferente, o empresário a demitir quem se identifica com a esquerda, e o cidadão a enxergar o adversário político como inimigo a ser destruído. É o velho macartismo reeditado, tropicalizado sob o discurso hipócrita de “liberdade de expressão”.
O caso Jojo Todynho escancara essa distorção: uma celebridade que se alinha ao discurso da direita acha legítimo expor uma trabalhadora apenas porque ela a criticou — e o faz com a certeza de que parte da base bolsonarista aplaudirá o linchamento. É o poder econômico e midiático sendo usado contra quem não tem o mesmo alcance nem a mesma proteção social.
Mas é também um retrato da covardia estrutural da elite bolsonarista, que se alimenta da perseguição aos mais vulneráveis.
Enquanto os poderosos fazem “exposed” de garçonetes e trabalhadores, seguem em silêncio diante de escândalos de corrupção, rachadinhas, milícias digitais e ataques à democracia.
É o típico cinismo da direita brasileira: grita contra “lacradores”, mas pratica o linchamento público sempre que pode.
O mais revoltante é que, no Brasil de hoje, a crítica feita por uma funcionária de restaurante ainda é vista como afronta, e não como expressão legítima de cidadania. Mas é justamente aí que mora a força da esquerda — defender quem não tem voz diante da opressão, da desigualdade e da perseguição política.
Esse tipo de episódio nos lembra que a luta de classes não é um conceito ultrapassado, mas uma realidade cotidiana — e que, infelizmente, muita gente prefere enxergar apenas quando é conveniente.
