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“Lula, em resumo, reformou o lulismo — se é que ainda faz sentido dar o mesmo nome às suas duas experiências.” Dessa maneira empolgada, Philippe Scerb, deixa nítido o tamanho da transformação que ele busca explicar, mas não explica. Seu verniz estético acadêmico, não consegue esconder seu caráter apologético. Aliás, para afirmar sua tese, foi necessário evitar ferozmente o diálogo com o bem fundamentado conceito de André Singer.
Além da empolgação, a citação acima revela outra grave fragilidade deste lulismo 2.0. Ele depende excessivamente do próprio Lula. Ao longo do texto esta fragilidade fica ainda mais evidente, mas logo na apresentação da ideia já é possível percebê-la. O autor aponta dois motivos para a virada: “as conjunturas nacional e internacional mudaram” – disso ninguém duvida – e, “Lula mudou” [sic]. E essa fórmula, associando um verbo pretérito na terceira pessoa ao nome de Lula, aparece sucessivas vezes além destas duas já apresentadas acima.
“Lula parece ter aprendido a lição”; “o Lula que hoje preside o país está muito mais disposto a comprar brigas…”; “É como se Lula tivesse compreendido…”.
O curso desta argumentação apologética dificilmente poderia terminar diferente. Desloca estas transformações pretéritas da compreensão de Lula para as tarefas do presente. O Lula que aprendeu a lição agora nos ensinará o caminho.
“Lula oferece os elementos que a esquerda de verdade precisa para organizar, formar e mobilizar os trabalhadores…”
O que é o lulismo?
O livro “Os Sentidos do Lulismo – reforma gradual e pacto conservador”, de André Singer, foi publicado em 2012 e se afirmou como obra incontornável para tratar do lulismo. O artigo “Raízes sociais e ideológicas do lulismo” (2009) apresentou a hipótese inicial do realinhamento eleitoral que estrutura o livro de 2012 e foi posteriormente revisado e incorporado como o primeiro capítulo deste livro.
O conceito tem nitidamente o intuito de criar uma distinção entre o que fora e é o petismo, e a sua audiência eleitoral e política, e as resultantes do pacto no qual se baseou Lula em seus dois primeiros governos. O lulismo é, portanto, um fenômeno político que representa a adesão do subproletariado – uma base até então não aderente ao petismo – a um projeto de reforma gradual e pacto conservador. É óbvio que Lula tem um papel chave nisso, mas o conceito não se resume às suas vontades ou disposições, mas na resultante do pacto de classes no qual ele se sustentou.
Por isso, escrever sobre uma virada conceitual mencionando apenas uma vez o artífice do conceito é espantoso. Mas é mais espantoso ainda o aparente desconhecimento da atualização que André Singer fez do lulismo, ao lado de Fernando Rugitsky, em artigo da New Left Review no recente ano de 2024, sob o título de “Slow Motion Lulismo”[1]. Ao invés de apontar uma reviravolta no conceito, os autores sugerem seu aprofundamento: concessões amplas à burguesia combinadas com medidas sociais voltadas às massas. Espremida dentro de um cenário mais difícil, a manutenção da mesma estratégia não consegue alcançar resultados com o mesmo alcance dos governos anteriores. Especialmente porque embora as bases macroeconômicas neoliberais tenham se mantido, elas se radicalizaram, “obrigando”, entre outras coisas, o governo a aprovar um arcabouço fiscal ultra regressivo. Sem contar a perda de base parlamentar que tornou o governo refém de um centrão empoderado e muito mais alinhado com a extrema direita. A ideia de um lulismo em câmera lenta, portanto, aponta uma estratégia de reformismo mais fraco e não o contrário.
2025 e a reorientação à esquerda de Lula
Dito isto, é preciso reconhecer que algo de novo ocorreu em 2025 no governo Lula III em relação aos seus dois anos iniciais. A pergunta é: trata-se de uma mudança estrutural ou conjuntural? Não cometeria a precipitação do autor com quem polemizo de dar uma resposta acabada para um fenômeno em curso, mas há duas ordens de argumentos que apontam para a segunda opção.
O primeiro diz respeito à origem do giro. É possível datar com precisão o início da reorientação política do governo: 25 de junho de 2025. Nesta data a Câmara votou o Projeto de Decreto Legislativo que sustou os efeitos do Decreto do presidente Lula que aumentava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). A última vez que o Congresso havia derrubado um decreto presidencial foi em 1992, no governo Collor. A votação foi esmagadora, 383 votos a favor da derrubada e apenas 98 votos contrários. Entre os votos favoráveis à derrubada, 243 partiram de deputados de partidos da base do governo, o que representa 63% dos deputados dessas siglas.
Uma semana depois, no dia 02 de julho, em clara reação à derrota da semana anterior, Lula exibiu o cartaz pela taxação dos super ricos. Este é o marco da nova postura do governo e de Lula frente ao Centrão. Na semana seguinte, em 09 de julho, Trump anunciou as tarifas contra o Brasil atacando o STF e buscando inocentar Bolsonaro. Portanto, a reorientação política não foi apenas uma questão de escolha, de compreensão, foi uma necessidade. O pacto da governabilidade que era a aposta número 1 do governo foi inviabilizado pelo “Centrão”.
A convergência da pauta do “nós contra eles” e a defesa de nossa soberania tiveram efeitos imediatos na melhora da avaliação do governo e no desempenho de Lula na corrida presidencial. Foi neste roldão que o governo assumiu de forma mais aberta pautas à esquerda como o fim da jornada 6×1, tarifa zero e a taxação BBB. Aí também que se mobilizou de maneira mais frontal contra o “Congresso inimigo do povo” que apontava para a Anistia dos golpistas de 08 de janeiro e para a PEC da Blindagem, levando aos atos de 21 de setembro.
Parece, assim, que Scerb se baseia numa mudança da orientação política do governo que acaba de aniversariar seis meses para justificar a transformação de um fenômeno de duas décadas.
O segundo argumento diz respeito ao alcance destas medidas se comparadas com medidas do governo Lula I e II. Porque se é verdade que se avança em agendas fundamentais e novas que têm impacto importante sobre a vida do povo, também é verdade que se recua em pautas que naquele momento tiveram amplo alcance, como a valorização do salário mínimo que, em 2024, com a Lei Complementar 212 limitou o crescimento do valor real do salário mínimo à 2,5%, mesmo que a economia cresça numa proporção maior. É possível também lembrar do alcance da política de expansão da educação federal, especialmente o REUNI, o PROUNI e o FIES. Ao contrário de desvalorizar as medidas atuais, é preciso também ter a dimensão de que a legitimidade do lulismo também se construiu com medidas de importante impacto na sociedade brasileira, inclusive confrontando setores da elite, e isto não modificou o fenômeno, ao contrário, se tornou um de seus fundamentos explicativos.
Por fim, é necessário afirmar que a defesa de medidas progressivas que agora se tornam carro chefe da disputa em 2026, não anulam a manutenção do tripé macroeconômico neoliberal, os juros estratosféricos, a intensificação da estratégia primário-exportadora e a ausência de nada próximo do que se possa chamar de reforma agrária. Isso mantém praticamente intacto o pacto conservador apontado por Singer. E ainda há o espelhamento de medidas ambientalmente regressivas e diretamente associadas ao modelo primário-exportador como Belo Monte sendo levadas adiante na Foz do Amazonas e nos Rios Tapajós, Tocantins e Madeira.
Um lulismo sem base social?
Na pressa de apresentar a defesa da sua política, Philippe deixou sua construção teórica com pilares de areia. Vejamos. Se, como afirma o autor, a base do lulismo de André Singer, o subproletariado, “continua sendo sua base fundamental”, ou seja, seguindo como a base do novo lulismo. E, se esta base “foi sempre avessa a processos disruptivos de transformação”. Então, se “hoje o conflito está no centro de sua política” e “Lula 3 é um governo de confrontos”, na extrema esquerda que as circunstâncias permitem, como tal base irá acompanhá-lo?
“Subproletários são aqueles que ‘oferecem a sua força de trabalho no mercado sem encontrar quem esteja disposto a adquiri-la por um preço que assegure sua reprodução em condições normais’” [2]
Este segmento, que representa fatia expressiva do eleitorado brasileiro, foi historicamente marcado pela pequena capacidade de se auto-organizar e pela rejeição à esquerda. Se apoiando na análise de classes do 18 Brumário de Marx, Singer vai correlacionar estes dois elementos, apontando que a tendência de adesão histórica do subproletariado às soluções pelo alto derivam justamente da sua dificuldade estrutural de se organizar.
“Identificada como opção que colocava a ordem em risco, a esquerda era preterida em favor de uma solução pelo alto, de uma autoridade já constituída que pudesse proteger os mais pobres sem ameaça de instabilidade.” [3]
Por isso que o neofascismo se apresenta para disputar a representação desses segmentos. O chamado subproletariado se mostra acossado por uma nova competição política pela sua audiência. A extrema-direita consegue estabelecer mais vínculos com ele do que as antigas elites neoliberais superadas pelo lulismo, seja por seus canais neopentecostais, seja pelo seu dinamismo nas redes sociais, seja por sua apresentação autoritária, catalisando moralismos profundos na sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, sua condição de classe é cada vez mais permeada pela razão neoliberal, disseminada através da uberização dos trabalhos, do empreendedorismo de si mesmo e disseminação de uma ilusão meritocrática.
Há um furo, portanto, na argumentação de Scerb no diálogo com o conceito de lulismo e não é qualquer furo, ele diz respeito justamente ao seu aspecto mais central: sua base social. Porque se ele está considerando que este novo lulismo é uma aproximação de Lula das teses que poderiam ser consideradas como do petismo, isso poderia implicar também numa mudança de base social e, assim, deixar de ser propriamente lulismo. Nisso o autor pode ter razão, talvez não faça o menor sentido usar tal nome para embasar seus argumentos.
O lulismo não será um peronismo
Há ainda um aspecto subliminar que parece sustentar essa argumentação do lulismo que extrapola o conceito de Singer. Trata-se da ilusão de que o lulismo se manterá como horizonte mesmo na ausência do Lula, cumprindo uma trajetória histórica similar a do peronismo. Naturalmente, o futuro não nos pertence, mas é possível apresentar sinteticamente alguns elementos que tornam esta possibilidade bastante improvável.
As estruturas sociais que distanciam Brasil e Argentina, a diferença entre nossas desigualdades, é enorme. A distância que separa o contexto da industrialização Argentina da década de 40 e o subproletariado do contexto atual brasileiro, nem se fala. Vai no mesmo sentido, o fosso que afasta aquele sindicalismo das atuais formas de atuação política atomizada. Acrescenta-se aí, as formas de relação com as massas, mobilizadora no caso de Perón, apassivadora no caso de Lula. Na Argentina apostando na mobilização orgânica, no Brasil na manutenção de uma audiência eleitoral. A estratégia das reformas estruturais de Perón, diante do reformismo fraco de Lula, também se somam nestas distinções. Enfim, é possível destacar diversos aspectos que separam as realidades argentina e brasileira e os distintos tempos históricos.
Lula certamente seguirá como um símbolo a ser disputado pelas lutas sociais e políticas do futuro. Será um símbolo de um homem do povo que chegou longe, voou alto. Que se comprometeu com uma bandeira vermelha. Mas a capacidade de se construir um movimento político orgânico apenas em torno de seu legado parece não estar colocada. Em primeiro lugar, por conta da própria base social do lulismo, que como aponta André Singer migrou de lideranças, nos diferentes períodos da República, na busca por segurança e garantias. Em segundo lugar, por conta do próprio PT que seguirá ocupando um espaço partidário próprio e sem a presença do Lula real, verá disputada a mitologia lulista em diferentes perspectivas que recortam sua pluralidade interna.
Além disso, a esquerda brasileira vai além do espectro do PT, apesar de reconhecer nele o polo principal. A longa história dos partidos comunistas e sua contribuição na luta contra a Ditadura e para os movimentos sociais brasileiros. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, que é um partido político não eleitoral na acepção gramsciana de partido, com escola, formação, estratégia, propaganda e ação direta. O PDT e o brizolismo. O Partido Socialista Brasileiro. E o Partido Socialismo e Liberdade, PSOL, que se tornou o partido mais conectado com a renovação da esquerda brasileira. Essa diversidade também disputará o legado lulista com a autoridade de quem colaborou para sua existência, mas o colocando sob diferentes perspectivas.
Portanto, há aspectos na formação social brasileira, no próprio PT e no conjunto da esquerda no Brasil que distanciam fortemente os destinos do peronismo dos destinos do lulismo. Há ainda aspectos no interior de cada um destes fenômenos – seus programas, sua base social, sua estratégia – que os distinguem profundamente.
A angústia, justificada, do vazio sucessório parece alimentar esta ilusão. “Ah se o lulismo durasse pra sempre…” talvez assim fôssemos poupados desse medo do futuro. Não há nome à altura da tarefa de substituir um personagem com o alcance histórico do Lula. Mas sim, é possível, entender o Lula dentro da longa história da luta pela emancipação do povo brasileiro e fazer com que seu legado prossiga sem que esta tradição seja subsumida no seu legado.
O lulismo é anteparo ou vanguarda?
A compreensão crítica do lulismo não significa sua rejeição. Aqui há um aspecto fundamental sobre teoria e prática. Naturalmente, elas não podem estar em contradição, mas em geral quando se busca subordinar a primeira na segunda, deixa-se de produzir teoria e se faz apenas apologia.
Lula é hoje o único candidato capaz de derrotar o bolsonarismo e o é porque sintetiza muitas histórias em sua própria história, da emigração na década de 50, para integrar o operariado da industrialização paulista dos 60, a luta contra a ditadura, o novo sindicalismo, a redemocratização, a fundação do PT, as derrotas eleitorais de 89, 94 e 98, os governos Lula I, II, a prisão injusta de 580 dias e a reeleição em 2022. Não é apenas uma vida, é uma saga! Supera em dimensão pessoal todos os personagens da nossa história política, Dons Pedros, Getúlio, Fernando Henrique, Bolsonaro. Isso certamente pesou para amalgamar os diversos aspectos que constituem o lulismo.
Por isso, devemos trabalhar sem titubeio para construir a frente mais ampla possível em torno do Lula para vencer as eleições de 2026. No entanto, o que fundamenta esse movimento é uma estratégia defensiva, que tem como centro a derrota da extrema-direita e uma compreensão cristalina do tamanho do impacto que uma vitória deles teria para o conjunto do povo brasileiro e latino americano.
Colocar esse movimento defensivo como o mais avançado que podemos fazer é aderir ao pacto conservador apontado por André Singer. Justamente porque a conjuntura virou, que o fascismo se tornou uma força social relevante, que o imperialismo reassumiu sua face mais agressiva e a guerra se tornou uma ameaça concreta, justo por isso, que é necessário pensar o Brasil para além do possibilismo lulista. Ir além do reformismo fraco é uma obrigação deste tempo histórico. No mínimo, temos que defender um reformismo forte! Ir além da macroeconomia neoliberal é obrigação dessa geração de lutadoras e lutadoras. Superar nossa dependência estrutural, nossa especialização primário-exportadora e nossa concentração fundiária são necessidades para um futuro soberano.
Isso não é performance, isto não é radicalismo de centro acadêmico da PUC-SP, isso é coerência com uma trajetória histórica da esquerda brasileira. Isto é conexão com o pensamento crítico latino americano. Isto é marxismo. Abdicar destes acúmulos em nome de qualquer líder possibilista, é renunciar ao socialismo. Escrever textos com verniz intelectual para menosprezar o papel da formulação e do debate teórico é anti intelectualismo narodnik.
Estar ao lado de Lula é um dever dos socialistas, acreditar que “Lula oferece os elementos que a esquerda de verdade precisa” é limitar a esquerda de verdade a margens muito estreitas. Ou foi Lula quem desembainhou a luta pela escala 6×1? Estaremos ao lado de Lula em todas as brigas que ele comprar com nossas classes dominantes! Estaremos ao lado dele nas eleições de 2026! Ao lado esquerdo, levando para frente ampla os anseios e lutas do povo, as reformas estruturais que o Brasil precisa e que podem se conectar com nossa emancipação. Não, não precisamos ser mais lulistas do que o rei.
[1] André Singer & Fernando Rugitsky, ‘Slow Motion Lulismo’, NLR/Sidecar, 08 Janeiro 2024
[2] SINGER, André. Raízes sociais e ideológicas do lulismo. Novos estudos CEBRAP, 2009, 83-102.
[3] Idem
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