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O plano de Trump sobre carne importada que revoltou produtores dos EUA

por Guilherme Arandas
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Gado argentino. Foto: Divulgação

Produtores rurais dos Estados Unidos criticaram duramente a sugestão do presidente Donald Trump de aumentar a importação de carne bovina da Argentina. A proposta, feita no domingo (19) durante voo no Air Force One, teria como objetivo conter a disparada dos preços da carne no país, que atingiram níveis recordes neste ano.

O comentário reacendeu o atrito entre o governo e o setor agropecuário, que já havia se mostrado insatisfeito com a ajuda financeira de US$ 20 bilhões concedida por Washington a Buenos Aires em meio à crise econômica argentina.

Trump afirmou que a medida ajudaria um “aliado importante” e não teria grande impacto no mercado doméstico. “Se comprarmos um pouco de carne bovina da Argentina, não muita, isso ajudaria a Argentina, que consideramos um país muito bom, um aliado muito bom”, disse o presidente a jornalistas.

No entanto, o gesto foi mal recebido entre pecuaristas e agricultores norte-americanos, que veem a ideia como um risco aos seus lucros e à segurança alimentar do país. “Esse plano apenas cria caos em um momento crítico para os produtores de gado, sem efeito real sobre os preços nos supermercados”, declarou Colin Woodall, diretor-executivo da Associação Nacional de Pecuaristas de Carne Bovina.

Já Rob Larew, presidente da União Nacional dos Agricultores, disse que a decisão “recompensaria injustamente” um país que vem superando os EUA na venda de soja à China, principal destino das exportações agrícolas americanas.

O Departamento de Agricultura dos EUA afirmou que busca formas de equilibrar o mercado e apoiar pecuaristas afetados pela alta dos custos e por desastres climáticos. Segundo a pasta, o governo também trabalha para abrir novos mercados internacionais para a carne bovina americana.

Mesmo assim, o anúncio foi visto como uma tentativa de aliviar a inflação alimentar sem enfrentar as causas estruturais da crise no setor. Especialistas em economia agrícola avaliam que a importação de carne argentina teria impacto limitado sobre os preços domésticos.

O Steiner Consulting Group destacou que a Argentina respondeu por apenas 2% das importações de carne bovina dos EUA no último ano, um volume insuficiente para alterar o equilíbrio do mercado. “Os Estados Unidos não podem comprar carne da Argentina em quantidade suficiente para mexer de forma relevante nos preços”, afirmou o grupo.

Além disso, economistas alertam que a entrada de carne estrangeira pode desestimular a expansão do rebanho nacional, já em queda. Segundo Derrell Peel, da Universidade Estadual de Oklahoma, o ciclo de produção bovina leva cerca de dois anos, o que inviabiliza uma resposta rápida à escassez.

“A inundação do mercado com carne importada pode afetar nossa independência alimentar a longo prazo”, disse Zippy Duvall, presidente da Federação Americana do Bureau Agrícola.

O rebanho americano atingiu neste ano o menor nível em quase 75 anos, resultado de uma seca prolongada que reduziu as pastagens e elevou os custos de alimentação. A situação foi agravada pela suspensão das importações de gado mexicano, medida adotada em maio após o surgimento da praga conhecida como bicheira-do-Novo-Mundo.

Outro fator que limita a oferta é a política tarifária do próprio governo, que reduziu significativamente as compras de carne bovina do Brasil. Com o mercado interno pressionado e poucos parceiros comerciais disponíveis, a proposta de Trump de recorrer à Argentina divide economistas, mas preocupa produtores, que temem ver o setor rural fragilizado.

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