Fazer uma retrospectiva neste artigo pode ser redundante, já que muitos de nós buscaram se informar, obter dados e ouvir as vozes dos palestinos enquanto sobreviviam a um genocídio, que completa dois anos nesta terça-feira (7). Desde outubro de 2023, acompanhamos ao vivo, diariamente, pelos nossos celulares, o extermínio do povo da Faixa de Gaza por seus algozes coloniais israelenses.
No fim de agosto, vimos por um link ao vivo a morte de 22 palestinos no “ataque duplo” ao Hospital Nasser. E no fim de maio, vimos a pequena Ward Khalil sobreviver de um prédio em chamas depois de um ataque israelense que matou sua mãe e cinco irmãos. Enquanto escrevo estas linhas (e vocês as leem), a violência continua ininterrupta.
Hoje, não temos dimensão do impacto das operações militares de extermínio e destruição. O Ministério de Saúde de Gaza (MGS) faz o registro das casualidades desde o início das ações israelenses. Em 1º de outubro, eram 66.148 palestinos assassinados por ação direta do Exército israelense, incluindo 18.430 crianças, representando quase um terço das mortes, 27,8%.

Para termos ideia o quanto podemos estar subestimando as vítimas fatais de Israel, e a dimensão do genocídio por consequência, no artigo Skewering History: the odious politics of counting Gaza’s dead, publicado em julho deste ano, Richard Hil e Gideon Polya argumentam a partir de um acúmulo de debates feitos na Revista Lancet — especialmente o artigo Counting the dead in Gaza: difficult but essential, de julho de 2024 —, a necessidade política de recalcular as vítimas. Os autores apontam que, em áreas densamente povoadas de Gaza que foram totalmente destruídas, é desafiador ter números precisos. A organização “Save the Children” chegou a estimar que podem haver “20 mil crianças enterradas sob 51 milhões de toneladas de ruínas”.
Primeiro, eles acessam novamente o número de mortos por violência direta, ou por trauma, usando outros conjuntos de dados como a base de listas de hospitais, pesquisas online do MSG e obituários de redes sociais. De acordo com esse cálculo, o número de mortos estaria subestimado em 41%. Para os 15,5 meses de genocídio, período do estudo, eles chegaram ao número de 137 mil. A partir daí, os autores incorporam um cálculo das mortes indiretas, não causadas por trauma, resultantes de privações impostas, como fome sistemática, destruição de centros de saúde e falta de água e saneamento. O número total a partir de Hil e Polya seria de 680 mil mortes para o período. Isso representaria um terço da população de Gaza, 10% do total da população que vive no território da Palestina histórica (Gaza, Israel e Cisjordânia). Outros 7 milhões de palestinos vivem no refúgio, fora do território.
O genocídio em Gaza também é o mais mortal para jornalistas. De acordo com a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ, na sigla em inglês), nos últimos dois anos, 223 membros da imprensa foram mortos. Já o Comitê para Proteção de Jornalistas (CPJ), organização sediada em Nova York, registra 237 assassinatos de jornalistas e trabalhadores da mídia. Para fins de comparação, de 1992 até hoje, de acordo com o CPJ, foram mortos 67 jornalistas no Afeganistão, 19 na Bósnia e 44 no Brasil. No Iraque, que passou por duas invasões dos EUA, em 1992 e 2003, que desencadearam confrontos internos de diferentes milícias, foram assassinados 251 profissionais de mídia nesse período. Em Myanmar/Burma, que também vive um genocídio — o dos Rohingya —, entre 2021 e 2024, sete profissionais de imprensa foram mortos.

De qualquer forma, teremos apenas os números precisos da catástrofe quando as operações israelenses forem interrompidas e os palestinos puderem revirar os escombros de Gaza para reconstruir suas vidas e dar a despedida merecida aos seus mortos.
Além dos mortos, o MSG computa 168.716 feridos. Milhares ficarão com sequelas físicas e mentais. Em novembro de 2023, por exemplo, a organização Médicos Sem Fronteiras criou a expressão “Criança ferida, sem família sobrevivente” (WCNSF, sigla em inglês). A pediatra Tanya Haj-Hasan relatou, no fim de 2024, que “com frequência tratava diversas crianças na sala de emergência, depois de ataques com vítimas em massa, que tinham perdido o resto de suas famílias no mesmo bombardeio”. Isso implica o desaparecimento de famílias inteiras, com crianças que não perderam apenas mãe e pai, mas toda a rede estendida que poderia cuidar delas.
O Fundo para Alívio de Crianças Palestinas informa que estamos diante da maior crise de órfãos da História moderna. O Centro de Estatísticas Palestino registra que mais de 39 mil crianças perderam um ou os dois progenitores. A Unicef revela que cerca de 1 milhão de crianças precisam de apoio de saúde mental e psicossocial.

Se até aqui temos dois dos cinco critérios que configuram o crime de genocídio — matar membros do grupo e causar sérios danos corporais e mentais — os dados de destruição vão além de mortes diretas e indiretas. O terceiro critério é “infligir deliberadamente sobre o grupo condições de vida calculadas para impor sobre ele a destruição física no todo ou em parte”
A ONU registrou que quase todas as construções em Gaza estão em ruínas, com 78% de todas as estruturas destruídas ou danificadas, sendo que 92% das unidades habitacionais foram demolidas, parcial ou totalmente, pelo Exército israelense e por empreiteiros acoplados a operações militares. Isso foi descoberto posteriormente pela imprensa israelense, com a notícia da morte de David Libi, de 19 anos, em junho de 2025, um colono de assentamento ilegal na Cisjordânia que trabalhava na empresa familiar Libi Construção e Infraestrutura. De acordo com o diário Haaretz, esse era o terceiro empreiteiro civil israelense morto em Gaza em 2025.
Isso expunha a tendência que ganhava corpo com a eleição do presidente Donald Trump nos Estados Unidos. Entre o final de março e o início de abril, a iniciativa Dados sobre Localização e Eventos de Conflitos Armados (Acled) identificou um aumento considerável na destruição de propriedades palestinas. O Shelter Cluster Assess, em análise até setembro, identificava que cerca de 1,5 milhão de pessoas tinham necessidade de abrigos de emergência.

É importante lembrar que foi Joe Biden — ou “Genocide Joe”, alcunha que ganhou no contexto dos protestos de estudantes nas universidades dos EUA — que facilitou a Tel Aviv levar adiante o extermínio palestino. No dia 22 de janeiro de 2025, dois dias depois de Biden deixar a Casa Branca, já havia uma conta de 47.161 palestinos mortos. Os dados de fome, com 91% da população enfrentando algum nível de insegurança alimentar, e de destruição de estruturas — 68% do total de estruturas já estavam destruídas — indicavam um genocídio em estágio avançado. “Genocide Joe” tinha seus interesses também, que convergiam com o dos estadunidenses. Por exemplo, quando, em outubro de 2024, o Hezbollah estava enfraquecido por conta das operações israelenses no sul do Líbano, foi o Departamento de Estado de Biden que quis apressar a sucessão e colocar no poder Joseph Aoun, um militar libanês frequentador do Pentágono.
Mas Trump permitiu a Israel “organizar” seu genocídio de duas formas. Primeiro, com os deslocamentos em massa do norte para o sul. Israel aprovou a Operação Carruagens de Gideão no início de maio, com o objetivo de realizar uma limpeza étnica na Cidade de Gaza. Um mês antes, em abril, o governo israelense implementou a Linha Morag, uma divisão para isolar o distrito de Rafah, mais ao sul. Além disso, Israel criou campos de concentração na costa sul do território, entre os territórios de Deir El Balah e Khan Younis. Israel Katz, o Ministro da Defesa, disse que queria concentrar 600 mil palestinos no que ele chamava de “cidades humanitárias”.
A segunda dinâmica implementada por Israel foi a produção sistematizada da fome. No centro de tudo estava uma criação de EUA e Israel, a Fundação Humanitária de Gaza (GHF). Desde 27 de maio, Israel cerceou a ação de agências internacionais para implementar uma nova maneira de distribuir refeições, o que se integrava aos esforços de deslocamento demográfico forçado. A GHF, uma entidade registrada nos EUA, armou quatro postos concentrados no sul, nos quais Israel coordenava a distribuição de alimentos em conjunto com empresas de segurança, como a “Safe Reach Solutions” (SRS). De acordo com artigo de Julia Emtseva, a SRS é presidida por Philip Reilly, um ex-agente da CIA. Os postos do GHF se tornaram campos de extermínio, onde até meados de setembro, 2 mil pessoas haviam sido mortas.


Hoje, 100% das pessoas pesquisadas, cerca de 1,98 milhão, passam por algum tipo de insegurança alimentar. Na área central de Gaza, composta pelos distritos de Gaza, Deir al Balah e Khan Younis, entre 16 de agosto e 30 de setembro, 641 mil pessoas sofriam de níveis de IPC 5 de fome (catastrófica, a mais alta, primeiro passo para óbitos); 1,14 milhão sob nível IPC 4; e 198 mil de IPC 3.
Costumamos dizer que há um silêncio quando abordamos a questão palestina. Talvez hoje, nos últimos dois anos, temos agora um acordar, a produção de uma dissonância entre populações, solidárias aos palestinos e contra o genocídio, e seus governantes, que ainda enxergam em Israel um ativo estratégico que vale a pena sustentar a qualquer custo, inclusive dos palestinos.
Vimos neste domingo que a solidariedade aos palestinos não arrefeceu. Em Roma, 250 mil pessoas foram às ruas em Roma em quatro dias de protesto, inclusive bloqueando portos e estações de trem, contra o sequestro dos barcos da Flotilha por Israel, na semana passada.
O fato é que o genocídio provocou uma mudança em relação ao sentimento popular no mundo, cada vez mais contra o genocídio em Gaza e em oposição à frente EUA-Israel. Uma pesquisa do Instituto Gallup, feita entre 7 e 21 de julho nos EUA, mostrava a queda de apoio às ações israelenses. Em novembro de 2023, 50% dos estadunidenses aprovavam as ações militares, enquanto 45% desaprovavam. Em julho de 2025, 60% dos estadunidenses desaprovavam as ações militares e 32% aprovavam.
Em um escopo mais global, uma pesquisa do Pew Research Center, realizada em 24 países e lançada no início de junho, identificou que 20 tinham uma visão desfavorável a Israel. Na França, 63% têm uma visão desfavorável e 28% favorável. No Reino Unido, 61% desfavorável e 30% favorável. No Brasil atual, 58% das pessoas têm visão desfavorável a Israel e 32% favorável.
O ataque do Hamas, em 7 de outubro de 2023, introduziu o mundo ao confronto colonial entre palestinos e israelenses. Para os que estavam afastados, alienados ou ignoravam a questão palestina, essa “contraviolência do nativo”, como Frantz Fanon a definiu, pegou as percepções de assalto e tornou impossível ignorar a política de Palestina-Israel. Fosse para combater o genocídio, fosse para, como o fizeram propagandistas de Israel, para defendê-lo.
Um dos relatos mais reveladores, que exprimiam o sentimento daquela manhã do dia 7, foi do pesquisador, profundo conhecedor do Hamas, Tareq Baconi. Em um episódio do podcast Jewish Currents, em 19 de outubro, ou seja duas semanas depois do ataque, ele disse: “Estou surpreso com o que aconteceu. Também fiquei surpreso por como o Hamas foi capaz de conseguir realizar o ataque. Você tem que entender que para os palestinos existe o mito da invencibilidade israelense; obviamente, todos nós gostaríamos de nos agarrar à verdade de que Israel não é invencível e que o apartheid irá colapsar. Mas há esse mito, um mito muito poderoso. O Hamas estilhaçou isso. Não acredito que exista qualquer forma de voltar a qualquer crença de que Israel poderá proteger a vida de seus cidadãos enquanto mantém um regime de apartheid”.
Hoje, os ganhos do Hamas são muito pequenos. O grupo se enfraqueceu internamente, entre os palestinos, especialmente de Gaza, e agora depende de aliados como Catar e Arábia Saudita para ter algum ganho em negociações de cessar-fogo. Fanon, no embate inevitável entre a violência do regime colonial e a contraviolência do nativo, entendia a ação violenta como a “mediação perfeita” entre colonizador e colonizado. O “ homem se liberta na e pela violência”. Mas, como nos aponta Homi Bhabha, o próprio Fanon enxergava os limites ou era crítico a ela, era cuidadoso com a violência espontânea, já que o “ódio não é uma agenda” política.
O 7 de outubro, com todos os crimes de guerra registrados por instituições internacionais, foi uma mistura de um plano da resistência e a explosão de uma violência espontânea. O “ódio” criado na relação com o colonizador. Os treze anos de cerco — pontuados com operações de bombardeio como 2008-2009, 2012, e 2104 — produziram as mais diversas reflexões sobre políticas de morte de Israel em Gaza, da necropolítica de Achiles Mbembe à catastrofização de Ariella Azoulay e Adir Ophir.
Depois do 7 de outubro, vimos então a fúria do regime colonial elaborada na relação de violência de Fanon contra os nativos desde pelo menos que se estrutura desde pelo menos fins do século 19. O cerco anterior a 2023 não servia mais como modelo de controle, segregação e política de morte. O genocídio serve duplamente: por um lado, como punição, para restabelecer a dissuasão aos colonizados; por outro, como dispositivo e oportunidade políticos de uma nova reformulação do território, de modo a recolonizar Gaza sem sua população nativa/refugiada.
O futuro da Palestina depende em parte como nós vamos resolver a dissonância entre a solidariedade popular e a inação de nossos governantes diante do maior extermínio do século 21.
*Arturo Hartmann Pacheco, pesquisador de Relações Internacionais, membro do INCT-Ineu (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos) e do CEAI-UFS (Centro de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade Federal de Sergipe)
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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