A ofensiva estadunidense contra o Irã não busca ocupar o país, nem provocar um colapso do regime, mas forçar uma mudança de comportamento por meio da pressão militar e golpes seletivos contra sua cúpula. Washington aposta que o enfraquecimento dos principais setores fortaleça os pragmáticos do regime e permite uma recomposição estratégica com os Estados Unidos.
Como previmos há algum tempo e tendo em conta a intransigência contínua do regime iraniano (sua recusa em se comprometer a colocar fim ao enriquecimento de urânio e negociar limites em seu programa de mísseis balísticos), este enfrentava “o risco de um ataque militar que poderia criar uma situação que ameaçasse todo o regime e que pode conduzir finalmente à destituição de Khamenei do poder de qualquer modo”. Concluímos que o ataque iminente dos EUA foi “planejado para especificamente atingir Ali Khamenei, juntamente com os líderes radicais do regime iraniano, na esperança de que sua remoção abrisse caminho para a submissão de Teerã aos desejos de Washington” [1].
Também explicamos como a abordagem de Donald Trump para com o Irã se enquadra na estratégia que ele implementou com sucesso na Venezuela, que enfoca na “mudança do comportamento do regime” ao invés de “mudar o regime” mesmo, como o governo George W. Bush tentou fazer invadindo o Iraque em 2003. Uma diferença significativa entre a Venezuela e o Irã, no entanto, é que Washington tinha conexões com figuras centrais no regime venezuelano e acreditava que iriam atender às suas exigências uma vez que se submetessem à intensa pressão e após a remoção de seu presidente, Nicolás Maduro, por meio de seu sequestro. No Irã, pelo contrário, o regime exerce um controle e uma supervisão muito mais rigorosa sobre suas figuras de liderança, tornando muito menor o risco de qualquer uma delas chegar a um acordo nos bastidores com Washington. Além disso, sequestrar o Líder Supremo da República Islâmica do Irã não era uma opção viável e, de qualquer forma, eliminá-lo não teria sido suficiente para mudar a trajetória do regime. Por esta razão, a operação estadunidense contra o Irã é mais ampla e mais complexa do que aquela que teve como alvo a Venezuela. Então, qual é o objetivo do governo Trump no Irã? Vale a pena repetir que não é a “mudança de regime”, apesar da insistência daqueles que falharam em não compreender as amplas diferenças entre aquela política – como exemplificada pela ocupação do Iraque – e as operações militares de larga escala. O atual ataque violento não é acompanhado de qualquer intenção de ocupar o Irã (mesmo supondo que uma ocupação seria possível, dado que exigiria um esforço militar mais semelhante às guerras da Coréia e do Vietnã do que à ocupação de um Iraque muito enfraquecido em 2003 – algo que o governo dos EUA não é nem capaz politicamente nem deseja empreender). Então, tudo o que Trump tem feito até agora parece consistente com a abordagem descrita acima, a ponto de garantir à espinha dorsal do regime iraniano – a Guarda Revolucionária – que lhes garantirá “imunidade total” se interromperem a guerra e se submeterem à vontade de Washington.
Isso sugere que a aposta de Washington no Irã se baseia mais na esperança do que na certeza, ao contrário de seus planos na Venezuela. O governo Trump está apostando que a pressão militar esmagadora, combinada com a eliminação de diversos líderes – incluindo o líder do Estado – irá inclinar a balança a favor dos “moderados” pragmáticos e não ideológicos. Estes são figuras que acreditam que preservar o regime dos mulás agora requer abandonar a postura de “resistência” e “firmeza”, renunciando as ambições expansionistas regionais, e buscando a abertura política e econômica em relação aos Estados Unidos. Tal mudança, eles acreditam, levará o Irã ao caminho do desenvolvimento econômico para o qual o país possui um potencial considerável. Também prolongaria a vida útil do regime e diminuiria a oposição popular, especialmente se acompanhado por uma redução significativa da repressão que pesa sobre a vida cotidiana, particularmente para as mulheres. O cerca se fechou ao redor do regime dos mulás a tal ponto que não pode mais continuar seu curso anterior – a menos que os radicais optem por transformar o país em uma ditadura absoluta, isolada e empobrecida, semelhante à Coréia do Norte. Logicamente, esse cenário não pode ser descartado, embora o povo iraniano tenha se mostrado menos suscetível à doutrinação e à submissão do que a população daquele infeliz país.
Aqui reside a diferença fundamental entre os objetivos do governo Trump no Irã e aqueles do governo sionista – de fato, do Estado sionista. Netanyahu tem repetidamente apelado à população iraniana para derrubar o regime e tem abertamente expressado seu desejo pela restauração da dinastia Pahlavi, que foi derrubado pela Revolução Iraniana em 1979, representada por Reza Pahlavi, filho do xá deposto. No entanto, Washington não apoiou o filho do xá, assim como não apoiou o líder da oposição venezuelana, julgando ambos incapazes de governar seus respectivos países. Seu objetivo principal é que o regime iraniano, com suas estruturas centrais intactas, coopere com os Estados Unidos da mesma forma que outros aliados regionais de Washington. Eles temem o colapso do regime, reconhecendo que tal resultado provavelmente levaria ao caos armado e à fragmentação, produzindo extrema instabilidade na região do Golfo – um resultado totalmente contrário aos interesses de Washington e até mesmo dos interesses pessoais e familiares de Trump (sem mencionar os das família Kushner e Witkoff).
Em contrapartida, o governo sionista favorece tal colapso, que está alinhado com o plano sionista de longa data de fragmentar todo o Oriente Médio e reforçaria a imagem do Estado de Israel como “uma cidade na selva”, como descreveu certa vez o ex-primeiro ministro israelense Ehud Barak – ecoando o fundador do moderno sionismo, Theodor Herzl, que prometeu que o “Estado dos judeus” que ele visionava seria “um posto avançado da civilização em oposição à barbárie”, tomando emprestado o léxico colonial. Enquanto isso, o Estado sionista tem ultrapassou todos os outros Estados da região em barbárie por meio da guerra genocida que travou – e continua a travar – em Gaza.
[1] “A Game of Chicken Between Washington and Tehran? [em árabe], Al-Quds Al-Arabi, 24 fev. 2026.
Traduzido de https://gilbert-achcar.net/trumps-objective-in-iran, por Paulo Duque, da equipe do Esquerda Online
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