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Resistência e Insurgência já não existem mais. E que bom! Depois de um longo processo de discussão e aprofundamento da experiência comum, as duas correntes decidiram se fundir e criar uma nova organização chamada Semear. Em um tempo de rupturas, desagregação, escândalos e acusações mútuas, esse é um passo modesto, mas muito importante. A nova organização conhece muito bem as suas limitações. Olhando de perto, ocupamos algumas posições na luta de classes. Mas se afastando um pouco, é possível perceber que se trata de uma corrente minoritária dentro de um partido minoritário. Não há nada de errado em admitir isso. Somos pequenos, mas somos também parte de importantes engrenagens: do PSOL, da coligação que lutará por reeleger Lula em 2026, de iniciativas como o Comboio Humanitário “Nuestra América” a Cuba, dos movimentos sindical, estudantil, feminista, antirracista, indígena, anticapacitista, antiproibicionista, antimanicomial e outros. Somos pequenos, mas temos amigos. E isso é o que mais importa.
Mas como chegamos a essa fusão? Referendada a unidade, é hora de compartilhar a experiência com ativistas de outras correntes, organizações, partidos e movimentos. Se é verdade que cada processo é único, também é verdade que algumas lições podem ser generalizadas, servindo não como uma receita pronta, mas como uma referência possível, um dado a ser considerado.
A objetividade e a subjetividade nas organizações socialistas
A última revolução socialista vitoriosa foi a vietnamita, que completou 50 anos no ano passado. Desde então: neoliberalismo, fim da URSS, globalização, decadência econômica e social, aprofundamento da crise de subjetividade do proletariado, fim da “Onda Rosa” na América Latina, derrota da Primavera Árabe, emergência climática, neofascismo, instabilidade geopolítica que flerta com um conflito de grandes proporções.
Dissemos mais acima que vivemos um tempo de fragmentações e rupturas. E é verdade. A divisão da esquerda revolucionária possui uma importante base objetiva que se expressa muitas vezes em uma incapacidade subjetiva de lidar com as inevitáveis diferenças que surgem no interior de qualquer organização. A última revolução socialista vitoriosa foi a vietnamita, que completou 50 anos no ano passado. Desde então: neoliberalismo, fim da URSS, globalização, decadência econômica e social, aprofundamento da crise de subjetividade do proletariado, fim da “Onda Rosa” na América Latina, derrota da Primavera Árabe, emergência climática, neofascismo, instabilidade geopolítica que flerta com um conflito de grandes proporções. São tempos ósseos, difíceis, que impactam a subjetividade dos socialistas e dificultam a construção da unidade.
Mas a história não é destino. De onde viemos ou mesmo onde estamos hoje – tudo isso importa, mas não determina nossa capacidade de lutar pela unidade daqueles que defendem um mesmo programa e uma mesma estratégia. É aqui que entra um aspecto mais subjetivo da organização, mas não no sentido individual- psicologizante, e sim de vontade coletiva, de projeto: O que essa organização quer para si e para o conjunto dos socialistas no próximo período histórico? Ela se coloca como tarefa ser um instrumento útil na superação da fragmentação dos revolucionários? Ou está satisfeita com as posições conquistadas? Não cansa de se autoelogiar por suas poucas centenas de militantes, seus gabinetes parlamentares e postos sindicais? Ou sua militância é educada em um espírito de que somos poucos, frágeis e por isso vemos em cada ativista da corrente vizinha um potencial aliado estratégico, um futuro militante de uma hipotética futura nova organização comum?
Não se trata, é claro, de idealizar a unidade. Há organizações verdadeiramente degeneradas pelo sectarismo, incapazes de reconhecerem sequer aliados táticos nas correntes da esquerda socialista. Seu único projeto é a autoconstrução, o que só pode acontecer via destruição das organizações irmãs.
Não se trata, é claro, de idealizar a unidade. Há organizações verdadeiramente degeneradas pelo sectarismo, incapazes de reconhecerem sequer aliados táticos nas correntes da esquerda socialista. Seu único projeto é a autoconstrução, o que só pode acontecer via destruição das organizações irmãs. São correntes centradas na disputa dos militantes de outros grupos, “partidos-embriões” que já contém em si todas as características do futuro grande partido revolucionário. Só falta… crescer. E eles fazem isso tentando ganhar militantes de outras organizações…
Há, por outro lado, organizações que não são sectárias, que estão dispostas a construir a unidade. Mas as diferenças são muito grandes e inevitavelmente nos dividem no terreno tático, programático e de projeto. Com essas, é claro, é preciso manter boas relações, colaborar no que for possível e acompanhar como a realidade objetiva impactará suas posições táticas e estratégicas. Aqui prima a paciência histórica, mais do que a ousadia.
Os critérios para uma fusão
Quais são os critérios que definem se uma fusão é possível ou não? Aparentemente, há aqui dois erros simétricos. O primeiro seria promover uma unificação em base unicamente a acordos políticos imediatos: a atual conjuntura, a palavra em relação ao presente governo, o ataque contra o inimigo comum da vez. Isso tudo importa, mas não basta. Os governos passam, os aliados e os inimigos mudam, a correlação de forças se inverte. Construir uma organização socialista em base a acordos conjunturais pode parecer uma boa ideia diante de grandes fatos da conjuntura, mas não é. Tais unidades tendem a ser efêmeras e provocar importantes crises mais à frente.
Há também o erro oposto: a unidade em base a questões programáticas gerais e teóricas abstratas: revolução socialista, internacionalismo, ditadura do proletariado etc. Essas questões também são importantes, mas não sustentam uma fusão. A unidade teórica ou programática abstrata não resistirá ao primeiro giro da conjuntura e também desembocará em nova crise e ruptura.
Em base a quê, então, unificar? É preciso encontrar um ponto de equilíbrio. Entre a unidade teórico-programática geral e os acordos táticos da conjuntura há um terceiro nível, mais intermediário: a visão de mundo, o projeto de construção na atual etapa mundial e nacional da luta de classes, a compreensão sobre as tarefas de médio prazo, o entendimento sobre o estágio atual do capitalismo, a avaliação da relação de forças internacional, a caracterização dos processos sociais, políticos, econômicos e militares centrais. Esse terceiro nível é uma espécie de “cola” que segura os outros dois níveis, fornece estabilidade à organização em médio e longo prazo, ao mesmo tempo em que alimenta as elaborações sobre a conjuntura presente.
>> Leia também: Semear – O futuro e um Brasil Socialista
É importante notar que em nenhum desses níveis precisamos de 100% de acordo em todas as questões. Uma organização socialista revolucionária pode conviver com nuances teóricas e programáticas, bem como com diferenças políticas, às vezes até bastante significativas. Se, apesar das diferenças, há acordo no projeto de médio e longo prazo, então há melhores chances de se manter a unidade, ainda que não se tenha garantia completa.
A questão da organização
Toda organização, seja ou não fruto de uma fusão, enfrentará debates, diferenças e crises. Não é possível prever quais serão as polêmicas. Mas é possível e necessário prever quais serão os mecanismos adotados para resolvê-las
Toda organização, seja ou não fruto de uma fusão, enfrentará debates, diferenças e crises. Não é possível prever quais serão as polêmicas. Mas é possível e necessário prever quais serão os mecanismos adotados para resolvê-las: Como será constituída a direção da nova organização? Quais serão os direitos da minoria e as prerrogativas da maioria? Quais são os mecanismos de debate interno reconhecidos por todos? Quem tem o direito de se chamar militante e portanto decidir os rumos da organização? Ou seja, aquilo que se convencionou chamar “questão organizativa” e que se expressa no estatuto da organização; o velho “parágrafo 1° dos estatutos”, que dividiu bolcheviques e mencheviques em 1903 e que foi tão mal compreendido pela social-democracia europeia da época. O estatuto é a materialização da concepção de organização. Em tempos de paz, talvez nem lembremos dele. A vida segue em base ao hábito e à confiança recíproca. Mas em tempos de guerra, o estatuto é “a organização da desconfiança”. Por isso, é preciso que ele seja um mecanismo sólido, que sua autoridade seja reconhecida por todos. Daí a importância da discussão organizativa em todo processo de fusão.
Primeiras conclusões de um debate
No que diz respeito à fusão da Ex-Resistência com a ex-Insurgência que resultou no Semear, não há garantias de nada. Somos débeis e cometeremos muitos erros. A experiência unitária apenas se inicia. Mas algumas conclusões parciais podem ser sistematizadas – novamente – não como receitas prontas, mas como uma experiência possível, uma primeira aproximação para seguirmos refletindo:
a) É preciso separar vocabulário distinto (que reflete apenas outra tradição) das diferenças reais. É comum falarmos a mesma coisa com outros nomes. Ou o contrário: usarmos palavras idênticas para nos referirmos a coisas distintas. Um processo de fusão exige tempo para aprender a língua um do outro, reconhecer os padrões comuns e construir uma nova cultura política superior. Reduzir a possibilidade de unificações às organizações que já têm o mesmo palavreado, a mesma tradição, é colocar amarras voluntárias à luta pela unidade. A superação da fragmentação só ocorrerá se soubermos ver a identidade por detrás das diferenças.
Toda fusão exige algum grau de renúncia àquilo que era habitual: velhos mecanismos, velhas formas de funcionamento. Esse tipo de coisa nem sempre constitui exatamente “diferenças”. Às vezes são apenas hábitos. Ninguém sai de uma fusão da mesma forma que entrou.
b) Toda fusão exige algum grau de renúncia àquilo que era habitual: velhos mecanismos, velhas formas de funcionamento. Esse tipo de coisa nem sempre constitui exatamente “diferenças”. Às vezes são apenas hábitos. Ninguém sai de uma fusão da mesma forma que entrou. Do contrário, estaríamos apenas diante da incorporação de uma organização por outra. A vida muda com uma fusão. Toda fusão é “desorganizadora” em um certo nível. É preciso paciência, plasticidade e disposição para testar novas formas. O conservadorismo é o grande inimigo.
c) Toda fusão tem fases muito diferentes entre si. Começa com a exposição sincera, completa e detalhada das posições de cada organização. Nessa fase, não se busca acordos. Busca-se conhecer. “Antes de unificarmo-nos e para unificarmo-nos, devemos primeiro decidida e definidamente nos diferenciarmos”, dizia Lênin no editorial do n° 1 do Iskra em dezembro de 1900. Conhecidas as posições de cada organização, devemos nos concentrar nas diferenças, organizando sistematicamente os temas a serem debatidos.
d) Não é preciso chegar a 100% de acordo em todos os assuntos. Mas também não é possível promover uma fusão quando restam importantes divergências. Algumas diferenças são insuperáveis e impedem a fusão, outras podem ser transpostas com a atividade e a experiência em comum. Outras ainda são secundárias e podem perfeitamente conviver dentro de uma mesma corrente. A inteligência das direções reside exatamente em saber separar o primeiro caso do segundo e do terceiro e organizar a fusão em torno de protocolos, cláusulas transitórias, garantias e compromissos explícitos e honestos.
e) É preciso não apenas encontrar fórmulas comuns, mas estar mesmo disposto a mudar de opinião sobre certos temas. Diferentes organizações têm diferentes acúmulos. É preciso perguntar sempre: existe a possibilidade de eu estar errado, enquanto o outro está certo? Ou seja, não se trata apenas de convencer a outra organização, mas de se abrir e estar disposto a ser convencido.
O Semear nasce de uma fusão para estabelecer novos laços, aprofundar velhos vínculos e para batalhar por novas unificações
No Congresso de Fundação do Semear, uma palavra soou mais que outras. Na discussão sobre a Carta de Princípios, no debate sobre Estatuto, na acirrada (e um pouco divertida) definição do nome – transitório. E isso em um duplo sentido: porque nossa própria fusão apenas se inicia e porque a encaramos não como o final de um processo iniciado há cerca de dois anos, mas como o início de uma outra jornada que apenas começa. O Semear nasce de uma fusão para estabelecer novos laços, aprofundar velhos vínculos e para batalhar por novas unificações. Estabelecemos as bases mais profundas de nossa corrente, erguemos um muro que consideramos sólido, mas que não é tão alto. Queremos ver o que se passa no quintal do vizinho, pedir e oferecer uma xícara de açúcar de vez em quando. Sentar à sombra da tarde, cada um em sua calçada, e trocar ideias. E quem sabe um dia, quando nos dermos de conta, o muro já nem esteja lá.
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