Casa BrasilSargento da PM leva policiais armados para intimidar diretora de escola por atividade sobre orixás

Sargento da PM leva policiais armados para intimidar diretora de escola por atividade sobre orixás

por Guilherme Arandas
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Emei Antônio Bento, em Caxingui, na zona oeste de São Paulo. Foto: Reprodução

A atividade sobre o livro “Ciranda de Aruanda”, realizada na Emei Antônio Bento, no Caxingui, zona oeste de São Paulo, desencadeou um grave conflito envolvendo um pai de aluna, policiais militares e a direção da escola. A proposta fazia parte do trabalho pedagógico sobre cultura afro-brasileira e educação antirracista, em alusão ao Dia da Consciência Negra.

As crianças foram convidadas a desenhar orixás retratados na obra. O pai de uma aluna de 4 anos, evangélico e identificado por moradores como sargento da Polícia Militar, reagiu com violência ao saber da atividade.

Segundo o boletim de ocorrência, ele foi buscar a filha e, após deixá-la em segurança, retornou sozinho à unidade. Apontando o dedo para a professora, afirmou: “Tem coisas que eu não gosto, vocês estão incluindo umbanda na vida da minha filha, eu não aceito”.

Em seguida, rasgou parte da atividade com o desenho da criança, diante de outras turmas. A diretora, Aline Aparecida Floriano Nogueira, tentou explicar que o conteúdo fazia parte da proposta curricular obrigatória e não tinha relação com ensino religioso.

Relatos do conselho escolar indicam que o pai ainda ameaçou a diretora ao dizer: “Vou te ensinar como você vai ter de fazer seu trabalho”. Ela apresentou a ele o material de educação antirracista da rede municipal e pediu que oficializasse a reclamação por escrito, o que não aconteceu.

No dia seguinte, em vez da carta, quatro policiais militares armados chegaram à escola alegando ter recebido denúncia de imposição religiosa. Um deles portava metralhadora. A diretora informou aos agentes que já havia conversado com o pai e esclarecido a situação, mas disse ter continuado sendo pressionada pelos PMs.

Capa do livro infantil ‘Ciranda de Aruanda’, da editora Quatro Cantos, escrito e ilustrado por Liu Olivina. Foto: Divulgação

A supervisora da Diretoria Regional de Educação foi acionada e orientou que a GCM também fosse chamada. Os policiais permaneceram na escola por mais de uma hora e, ao sair, conversaram com o pai, que aguardava do lado de fora. Segundo nota do Sinpeem, a diretora chegou a passar mal durante o episódio.

Dois dias depois, o homem retornou com a filha e entrou na sala de aula, ação proibida pelas normas internas. Um membro do conselho escolar foi atrás para acompanhar a professora, que ficou visivelmente abalada. A SSP informou que a Polícia Militar abriu apuração para avaliar a conduta dos policiais, com análise das imagens das câmeras corporais. A professora registrou boletim de ocorrência por ameaça.

A Secretaria Municipal de Educação afirmou que o pai recebeu esclarecimentos e destacou que atividades relacionadas à cultura afro-brasileira e indígena fazem parte do currículo obrigatório.  O Sinpeem repudiou a presença armada de policiais em um espaço destinado à educação infantil e reforçou que o trabalho tem respaldo pedagógico e legal.

A editora Quatro Cantos, responsável pelo livro, também se manifestou. Em nota, afirmou: “Nunca ouvimos falar que algum pai tenha se oposto ao estudo da mitologia grega, ou ao estudo do cristianismo ou protestantismo. O preconceito é direcionado para religiões de origem africana, e isso tem nome: racismo religioso. Por sorte a lei 10.639/03 segue respaldando escolas e educadores para que essa luta continue. Axé!”.

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