É uma das estratégias comunicativas da extrema direita: oferecer à população medidas simplistas como solução para problemas complexos. Mato Grosso é bicampeão da matança de mulheres, qual a solução simplória? Para os extremistas basta defender a pena de morte, pronto, está resolvida a escalada de feminicídios. Cotada como pré-candidata a deputada federal, a primeira-dama do Estado, Virginia Mendes (União), voltou a defender, na noite desta quarta-feira (8), a pena de morte, para homens condenados por feminicídio. Solução simplória, de franco apelo eleitoreiro. Nem as mulheres acreditam que a pena de morte seja a solução para barrar a matança em Mato Grosso. O debate torto, diversionista, deixa claro que Mauro Mendes criou para si o programa “Responsabilidade Zero”: a culpa e a responsabilidade são sempre dos outros. Simples assim, o povo que engula.
Matéria dos jornalistas Cíntia Borges e Giordano Tomaselli, do site Midanews, lembra que, lamentavelmente, Mato Grosso, sob a gestão do governo Mauro Mendes, lidera o ranking dos estados com maior número de mulheres mortas no ano passado. Nos primeiros nove meses deste ano, o estado já registrou 40 vítimas de feminicídio.
“Eu defendo pena de morte para quem matou, mas o Brasil é muito complicado. As leis mais severas não acontecem. São leis retrógradas, antigas. A gente precisa mudar isso”, afirmou a primeira-dama, sem oferecer mais nenhuma proposta para superar a grave e complexa questão social e cultural que envolve a matança de mulheres.
Mauro Mendes cria para si o programa “Responsabilidade Zero”. A primeira-dama joga na conta do presidente da República as providências para conter a escalada de matança das mulheres em Mato Grosso. “É preciso exigir isso do presidente Lula, porque são mulheres morrendo. O presidente precisa olhar para isso, afinal, ele governa para o Brasil”, disse, numa cena pública de diversionismo explícito.
As perguntas que não querem calar: ninguém pode exigir nada do governador Mauro Mendes? Ele tem “responsabilidade zero”? Quais são as políticas públicas, de segurança, social e cultural, que o governo do estado está adotando? Quais são os resultados alcançados? Por que o governador trabalhou para barrar a CPI do Feminicídio na Assembleia Legislativa?
Dona Virginia Mendes é cotada para disputar uma vaga de deputada federal no próximo ano pelo União Brasil, partido comandado pelo marido, o governador Mauro Mendes. Ela deve explicações sobre as lacunas e omissões do governo no combate à violência contra as mulheres de Mato Grosso. Defender a pena de morte; publicar vídeos perguntando “até quando?” a cada mulher assassinada e transferir responsabilidades do governador Mauro para os outros, são bandeiras eleitorais muito frágeis diante da realidade dos fatos.
Em tempo, para a discussão. Não há evidências de que a pena de morte reduza a criminalidade. Ao contrário, estudos de organizações como a Anistia Internacional e a ONU apontam que a pena de morte não diminui os índices de crimes em países que a aplicam, e seu uso é cada vez mais questionado globalmente. A certeza da punição, e não a severidade da pena, é o que mais influencia a criminalidade, segundo especialistas.
Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e doutor em Comunicação pela UFMG.
