Cuiabá atravessa uma das piores crises administrativas e fiscais da última década. Hospitais à beira do colapso, salários atrasados, obras paradas, fornecedores sem receber, e o caos generalizado na prestação de serviços públicos. Diante desse cenário, qualquer cidadão esperaria austeridade, prudência e transparência do poder público. Mas o que se vê é o contrário: um prefeito mais preocupado com likes do que com licitações, e uma Câmara de Vereadores que, ao invés de fiscalizar, prefere embarcar literalmente no mesmo voo da inconsequência.
Recentemente, o prefeito Abílio Brunini — que há poucos meses afirmava com veemência que “Cuiabá não precisa do dinheiro do governo federal” e que não aceitaria ajuda de “petistas” — anunciou a possibilidade de um novo decreto de calamidade financeira. A justificativa? Falta de recursos.
Ora, é preciso ter muita coragem — ou total desconexão com a realidade — para, no mesmo discurso, acusar o governo federal de abandono, negar repasses, e depois confessar que o município está em colapso financeiro. Essa contradição, que se tornou regra no bolsonarismo municipal, é um espelho fiel do discurso populista de extrema direita: rejeita a cooperação institucional por ideologia, e depois culpa o sistema pela própria incompetência administrativa.
O bolsonarismo político, em todas as suas versões — nacional, estadual ou municipal — tem uma marca comum: o governo se transforma em palco.
A gestão vira espetáculo.
A administração pública vira story de Instagram.
Prefeitos, deputados e vereadores dessa vertente política aprenderam a viver de lacrar nas redes sociais, transformar cada problema em narrativa de perseguição, e cada crítica em vitimismo. Fazem vídeos com frases prontas, gesticulam indignação diante da câmera, atacam adversários ideológicos, e se apresentam como heróis solitários lutando contra o “sistema”. Enquanto isso, os buracos nas ruas continuam abertos, os hospitais seguem superlotados e os professores, desvalorizados.
Em Cuiabá, essa lógica se repete de forma caricata. Abílio Brunini governa com um celular na mão e a cidade nos ombros — não para carregá-la, mas para usá-la como palco.
Quando as coisas dão errado, a culpa é sempre do outro: do governo federal, da gestão passada, da imprensa, do “sistema”. Nunca há responsabilidade própria.
Mas, curiosamente, quando o assunto é gastar dinheiro público com propaganda, viagens e projetos de visibilidade duvidosa, a gestão se torna ágil, eficiente e silenciosa.
Enquanto o discurso oficial é de “crise sem precedentes”, com possibilidade de calamidade financeira e cortes de serviços essenciais, o prefeito e parte da Câmara Municipal preparam uma viagem internacional a Dubai e à China.
E o mais grave: com custos de passagens pagos pela própria Câmara, ou seja, com o dinheiro do cidadão cuiabano.
Não há argumento técnico, econômico ou moral capaz de justificar que, em meio a uma crise dessa magnitude, o poder público custeie viagens internacionais sob o pretexto de “missão oficial”.
Enquanto servidores aguardam reajuste, unidades de saúde carecem de medicamentos e a população enfrenta filas e buracos, os representantes do povo fazem as malas para o Oriente Médio.
É a velha história da política brasileira — a crise só vale para o povo.
Quando é para cortar benefícios da população, falta dinheiro.
Quando é para bancar regalias da elite política, o cofre milagrosamente se abre.
A decisão da Câmara de Vereadores de Cuiabá de aprovar o custeio das passagens de dois parlamentares para “acompanhar” o prefeito nessa viagem é uma afronta ao princípio republicano da separação dos poderes.
O Legislativo, que deveria ser o freio e contrapeso do Executivo, se transformou em seu acompanhante de viagem.
Essa adesão simbólica representa mais do que conivência: é cumplicidade.
Num momento em que o prefeito é questionado por má gestão e contradições ideológicas, o Legislativo prefere o conforto do embarque do que o peso da fiscalização.
E isso mostra que a política cuiabana — como boa parte do bolsonarismo — perdeu o senso de limite entre o que é público e o que é pessoal.
O fenômeno não é isolado. O estilo bolsonarista de governar, mesmo em nível municipal, se alimenta de três ingredientes básicos: vitimismo, espetáculo e ideologia rasa.
É um modelo de gestão que reclama de tudo, governa pouco e comunica demais.
Não há planejamento, apenas improviso.
Não há gestão, apenas slogans.
Não há responsabilidade fiscal, apenas inimigos imaginários.
É a “gestão do meme”, em que o prefeito se coloca como personagem de uma narrativa de guerra cultural, não como gestor de uma cidade complexa.
Cuiabá vira um cenário de disputa simbólica, e não um espaço de políticas públicas concretas.
Enquanto isso, a máquina pública se deteriora, e os que mais sofrem são sempre os mesmos: o cidadão comum, o trabalhador, o contribuinte.
Aquele que não tem como se blindar da má gestão, que depende do SUS, que espera no ônibus atrasado, que sente na pele o abandono da cidade.
É preciso, sim, fazer uma crítica ferrenha — mas construtiva.
Não se trata de ideologia, mas de coerência.
Quem diz defender o povo, precisa agir pelo povo.
Quem promete eficiência, não pode viver de propaganda.
Quem fala em moralidade, não pode aceitar diárias e viagens em meio à calamidade.
A gestão pública exige responsabilidade, planejamento e transparência — não vídeos indignados no Instagram.
A Câmara precisa se lembrar de que seu papel é fiscalizar, e não aplaudir.
E o prefeito precisa entender que governar não é fazer lives, é entregar resultados.
O que Cuiabá vive hoje é um retrato fiel do populismo da extrema direita brasileira: muito discurso, pouca entrega; muito moralismo, pouca moralidade; muita encenação, pouca gestão.
Enquanto o povo enfrenta a crise de verdade, o governo municipal vive uma crise de credibilidade.
E o pior: uma crise alimentada por quem deveria dar o exemplo.
O bolsonarismo de palco, com sua estética de indignação e sua prática de desperdício, transforma o poder público em vitrine ideológica.
Mas o cidadão — aquele que paga impostos, enfrenta filas, trabalha todos os dias — precisa de gestores, não de influenciadores políticos.
O que se espera de Cuiabá é menos espetáculo e mais seriedade.
Menos viagem e mais trabalho.
Menos discurso e mais coerência.
Porque, no fim das contas, o povo não vive de lacre — vive de políticas públicas, e estas, infelizmente, continuam no porão enquanto o poder viaja em primeira classe.
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