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Dado, o ator das agressões, e Flávio, que homenageou milicianos: uma aliança que fala por si

por JR Vital
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Dado Dolabella entrou para a política. Filiou-se ao MDB do Rio de Janeiro com a intenção de disputar uma vaga de deputado federal e, logo após anunciar a filiação, declarou apoio a Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência da República. O ator afirmou que o senador pelo PL do Rio é o nome que “mais se alinha” às ideias que defende para o Brasil.

O discurso de estreia foi cuidadosamente construído. Dolabella disse que não entra na política por vaidade, mas porque conhece “na pele” o que significa enfrentar uma injustiça. Disse que quer dar voz “a quem não tem” — ao trabalhador invisível, à dona de casa, a qualquer cidadão “julgado e condenado antes de ser ouvido”. São palavras que, em outro contexto, poderiam pertencer a qualquer político de qualquer campo. No contexto de Dado Dolabella, carregam um peso específico que o próprio histórico do ator se encarrega de explicitar.


O que o currículo judicial diz sobre o discurso

Em 2008, Dolabella foi acusado de empurrar a então namorada, a atriz Luana Piovani, em uma boate no Rio. Uma funcionária do local que tentou intervir também teria sido agredida. O ator foi condenado a dois anos e nove meses de prisão em regime aberto e ao pagamento de indenização. Sempre negou as acusações.

No ano seguinte, já casado com a modelo Viviane Sarahyba, voltou a ser acusado de agressões físicas e verbais dentro do próprio lar. A Justiça determinou seu afastamento da residência do casal. Em 2018, foi condenado a um ano e 15 dias de prisão em regime aberto.

Em agosto de 2025 — portanto há menos de um ano — Dolabella foi condenado pela terceira vez, agora a dois anos e quatro meses de prisão em regime aberto, após denúncia feita por sua prima e ex-namorada Marina Dolabella. Ele contestou as acusações.

Três condenações. Três mulheres. Um discurso sobre injustiças e vozes silenciadas.


A escolha por Flávio Bolsonaro e o que ela sinaliza

A declaração de apoio a Flávio Bolsonaro não é aleatória. O senador fluminense é um dos nomes em construção para 2026 no campo bolsonarista — um candidato que tenta ocupar o espaço de continuidade do projeto político do pai em um ambiente em que Jair Bolsonaro permanece inelegível. Ter o apoio de uma figura com visibilidade midiática, mesmo que controversa, é parte da lógica de construção de coalizões que toda pré-candidatura presidencial precisa executar.

Para Dolabella, a escolha por Flávio — e não por Nikolas Ferreira, por Tarcísio de Freitas ou por qualquer outro nome do campo — diz algo sobre onde o ator pretende se posicionar dentro da direita brasileira. Não no centro renovador, não no conservadorismo de perfil técnico, mas no núcleo familiar bolsonarista. É uma aposta de nicho com potencial eleitoral específico no Rio de Janeiro — estado onde o bolsonarismo tem enraizamento territorial e onde Flávio tem base política própria.


O MDB como veículo e a ironia da sigla

A escolha do MDB como partido de filiação merece registro. O mesmo partido que, dias atrás, vivia a crise de identidade gerada pela recusa de Michel Temer em ser candidato e pela ausência de um projeto nacional coeso, agora abriga um ator com três condenações por violência doméstica que declara apoio ao filho de Jair Bolsonaro.

A lógica é puramente eleitoral — o MDB, com sua tradição de autonomia estadual e pragmatismo sem lastro ideológico, funciona como plataforma de acesso ao sistema partidário para candidatos que precisam de uma sigla sem o custo de filiação a partidos ideologicamente marcados. Dolabella não escolheu o MDB por afinidade programática. Escolheu porque estava disponível.


“Dar voz a quem não tem” — e quem são as que não foram ouvidas

O discurso de Dolabella sobre cidadãos “julgados e condenados antes de ser ouvidos” é, no mínimo, uma escolha retórica arriscada para alguém com seu histórico. As mulheres que o denunciaram — Luana Piovani, Viviane Sarahyba e Marina Dolabella — foram ouvidas pela Justiça. Três vezes. E três vezes a Justiça chegou à mesma conclusão.

A narrativa da vítima do sistema é um recurso político recorrente no Brasil contemporâneo — e funciona. Apela a um eleitorado que genuinamente se sente esmagado por instituições que não respondem às suas demandas. O problema, quando aplicada por Dolabella, é que ela inverte a geometria real do caso: quem foi esmagado pelo sistema em sua história pessoal não foi ele.


2026 e a normalização que a candidatura representa

A entrada de Dado Dolabella na política não é um escândalo isolado. É um sintoma. Em um ambiente eleitoral em que a Lei Maria da Penha é debatida no Congresso, em que o feminicídio segue como tragédia estatística recorrente e em que a violência doméstica continua subnotificada por vergonha e medo, a viabilização política de um homem com três condenações por violência contra mulheres envia uma mensagem que supera em muito a candidatura em si.

A mensagem é que o histórico não impede. Que as condenações não eliminam. Que o sistema político brasileiro tem espaço — e às vezes até entusiasmo — para acolher figuras que, em outros contextos democráticos, seriam consideradas inelegíveis morais antes mesmo de qualquer discussão jurídica.

Dolabella disse que quer dar voz a quem não tem. As mulheres que o denunciaram têm nomes, têm histórias e tiveram coragem de falar. O que elas não tiveram, ao que tudo indica, foi o poder de impedir que o agressor encontrasse, no sistema que deveria protegê-las, uma nova tribuna.

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