A geopolítica de Donald Trump não é movida por ideologia, mas por ativos. Após consolidar uma influência sem precedentes sobre as reservas de petróleo da Venezuela — sob o pretexto de asfixia financeira ao regime de Maduro —, o presidente americano agora executa o mesmo roteiro no Oriente Médio. O anúncio de uma possível operação terrestre com a Delta Force para “garantir” o estoque de 450 kg de urânio enriquecido do Irã é o capítulo final de uma doutrina que substitui a diplomacia pela posse material. Para Trump, o urânio iraniano não é apenas uma ameaça; é um espólio de guerra que precisa ser removido ou neutralizado sob custódia americana, transformando o desarmamento nuclear em uma operação de confisco de ativos tecnológicos e minerais.
O paralelo entre Caracas e Teerã é evidente: em ambos os casos, a intervenção direta ocorre em nações que possuem as maiores reservas mundiais de commodities críticas (petróleo e potencial atômico). No entanto, o “idealismo democrático” de Washington encontra um limite geográfico e geológico curioso. Enquanto Trump ameaça dizimar o Irã e controla as bombas de combustível da Venezuela, ditaduras brutais na África subsariana, em países desprovidos de riquezas minerais significativas ou relevância energética, permanecem intocadas. Regimes autocráticos que não oferecem urânio, petróleo ou metais raros não parecem qualificados para a “libertação” americana, levantando o questionamento ético: a luta de Trump é contra a tirania ou apenas contra tiranos que sentam sobre tesouros?
Esta seletividade expõe o que críticos chamam de “Imperialismo de Resultados”. Se o objetivo fosse puramente a segurança global e o fim das ditaduras, o mapa de intervenções do CENTCOM e do AFRICOM seria muito mais equilibrado. Ao focar no urânio de Isfahan após garantir o petróleo do Orinoco, Trump sinaliza que o custo de uma bota americana no chão só é pago se houver algo valioso para carregar na volta. O silêncio da Casa Branca sobre as crises humanitárias em ditaduras pobres da África é o grito mais alto de que, na era Trump, a “paz” é uma transação comercial e a liberdade tem um preço de mercado.