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Gleisi Hoffmann não esperou o fim do dia. Enquanto a Polícia Federal ainda executava mandados em São Paulo e Minas Gerais, a ministra das Relações Institucionais já havia transformado a terceira fase da Operação Compliance Zero em material político de uso imediato.
A declaração foi direta: a operação “expôs definitivamente a corrupção do Banco Central de Jair Bolsonaro e Roberto Campos Neto no escândalo Master.”
O verbo escolhido — “definitivamente” — carrega mais intenção do que precisão. As investigações estão em curso. Nenhuma condenação foi proferida. Os ex-servidores citados são investigados, não condenados. Mas a ministra não estava fazendo uma análise jurídica. Estava fazendo política — e fazendo com eficiência.
Os dois nomes do Banco Central que a operação trouxe à superfície
A PF identificou dois ex-servidores do Banco Central como alvos da Operação Compliance Zero: Paulo Sérgio Souza, descrito por Gleisi como ex-diretor de Fiscalização indicado por Bolsonaro, e Belini Santana, apontado como ex-chefe da Supervisão Bancária nomeado por Campos Neto. Segundo a ministra, citando a investigação, os dois receberiam dinheiro de Daniel Vorcaro para impedir a fiscalização do Banco Master.
Se confirmada pela instrução probatória, essa é a dimensão mais grave de todo o caso: não apenas um banqueiro que fraudava, mas um esquema que teria contado com a cumplicidade ativa de quem tinha o dever legal de fiscalizar. A lógica do Banco Master — crescimento acelerado, captação agressiva, carteiras de crédito inexistentes — só seria possível em escala bilionária se o ambiente regulatório permitisse ou, pior, se fosse ativamente neutralizado.
A pergunta que Gleisi formulou publicamente — “por que Campos Neto não agiu contra as fraudes de Vorcaro enquanto era presidente do BC?” — não é uma pergunta retórica para o PT. É uma pergunta que a investigação terá que responder com provas, e que o ex-presidente do Banco Central terá oportunidade de responder institucionalmente.
“A Turma” como elo político — e como munição
A ministra também evocou o grupo “A Turma” para construir uma cadeia de associação que conecta Vorcaro, Nikolas Ferreira, Fabiano Zettel e o campo bolsonarista em uma narrativa única. A formulação foi calculada: “enquanto emprestava avião para o deputado Nikolas fazer campanha para Bolsonaro, Vorcaro e seu cunhado Fabiano Zettel comandavam uma quadrilha criminosa.”
É uma frase construída para circular — e vai circular. Ela comprime em uma única sentença o jatinho, Nikolas, Zettel, Vorcaro e a ideia de organização criminosa, sem afirmar que Nikolas integrava a quadrilha, mas criando uma proximidade semântica que o leitor desatento — ou o eleitor de 2026 — pode não distinguir.
É jornalisticamente necessário registrar essa distinção: usar um avião de alguém não torna ninguém cúmplice dos crimes dessa pessoa. A PF não indiciou Nikolas. A investigação não o aponta como integrante do esquema financeiro ou do grupo de intimidação. O que existe é uma série de conexões — o jatinho, o contato no celular, a rede evangélica que o aproxima de Zettel — que criam uma narrativa política poderosa sem constituir, por ora, evidência jurídica de participação.
O PT e a janela que a Compliance Zero abriu
Para o governo Lula, a Operação Compliance Zero chegou em um momento de desgaste. A aprovação presidencial oscila, a agenda econômica enfrenta as consequências da Selic elevada e o campo político estava dominado, até ontem, pela crise do jatinho de Nikolas — uma narrativa em que o PT era espectador, não protagonista.
A prisão de Vorcaro e a revelação dos ex-servidores do Banco Central mudaram o enquadramento. De repente, o escândalo tem um endereço institucional que remete ao governo anterior: o Banco Central de Campos Neto, as nomeações de Bolsonaro, a fiscalização que não aconteceu. Gleisi foi a primeira a ocupar esse terreno — e ocupou com velocidade que sugere que o material já estava preparado para o momento certo.
Campos Neto e o silêncio que precisará ser quebrado
Roberto Campos Neto deixou a presidência do Banco Central em dezembro de 2024, após o fim de seu mandato. Sua gestão foi marcada por uma política monetária que dividiu o debate econômico brasileiro — e que agora enfrenta uma acusação de natureza completamente diferente: não de erro técnico, mas de omissão diante de um esquema que, segundo a investigação, contou com a cumplicidade de servidores nomeados durante sua gestão.
Campos Neto ainda não se manifestou sobre as acusações de Gleisi ou sobre a investigação que envolve os dois ex-servidores. Esse silêncio tem prazo de validade curto. A pressão para que o ex-presidente do BC responda publicamente — e eventualmente à própria Polícia Federal ou ao Congresso — crescerá na proporção em que as investigações avançarem sobre os ex-servidores e sobre o papel que a supervisão bancária desempenhou, ou deixou de desempenhar, no caso Master.
O risco do uso político prematuro — e por que ele não desaparece
Gleisi Hoffmann faz o que políticos fazem: usa os fatos disponíveis para construir a narrativa que serve aos seus objetivos. Isso não a torna desonesta — torna-a política. O problema do uso prematuro de investigações em curso é que ele cria expectativas que as provas podem ou não confirmar. Se a instrução probatória demonstrar que Paulo Sérgio Souza e Belini Santana recebiam pagamentos de Vorcaro para blindar o Master, a narrativa de Gleisi se consolida como verdade factual. Se as provas forem insuficientes ou se os investigados forem absolvidos, o discurso de hoje se converte em passivo político.
Por ora, o que existe são indícios que a PF considerou suficientes para justificar buscas e apurações — não condenações. A fronteira entre indício e prova é exatamente onde a política e o direito divergem com mais frequência — e com mais consequências.
A Operação Compliance Zero abriu uma janela. Gleisi entrou por ela antes que qualquer outro ator político tivesse tempo de avaliar o tamanho da abertura. Se o que estiver do outro lado for o que ela afirma que é, a semana desta quarta-feira terá reescrito o mapa político de 2026. Se não for, terá apenas acrescentado mais uma declaração ao interminável arquivo de acusações que a política brasileira produz e raramente resolve.
