O bolsonarismo construiu sua identidade política apoiado em um tripé retórico poderoso e emocionalmente mobilizador: Deus, pátria e família. Sob esse manto moral, a direita bolsonarista passou anos se apresentando como a antítese da “velha política”, prometendo ética, honestidade, moral ilibada e intolerância absoluta com qualquer desvio de conduta. O discurso foi eficaz. Seduziu milhões de brasileiros cansados de escândalos, crises institucionais e promessas não cumpridas. O problema é que, à medida que o tempo passa, a prática insiste em desmentir a retórica.
O episódio mais recente que escancara essa contradição envolve Flávio Bolsonaro, hoje apontado como pré-candidato à Presidência da República dentro do campo bolsonarista. Em um movimento que revela muito mais do que aparenta, Flávio se aliou politicamente a Pablo Marçal, figura conhecida não apenas por sua atuação como coach motivacional, mas também por um histórico que colide frontalmente com o discurso de moralidade absoluta propagado pela direita.
Pablo Marçal carrega em seu passado uma condenação por furto qualificado, proferida em 2010, relacionada a um esquema de fraudes bancárias realizadas no ambiente digital. Embora não tenha cumprido pena em razão da prescrição, o fato jurídico permanece registrado e é público. Prescrição não é absolvição; é apenas o reconhecimento de que o Estado perdeu o prazo para punir. Ainda assim, trata-se de um episódio incompatível com a narrativa de “ficha limpa” e “vida pregressa irrepreensível” tão exaltada pelo bolsonarismo quando lhe convém.
Mais recentemente, Marçal voltou a ser alvo de críticas após ignorar decisões da Justiça do Trabalho, deixando de cumprir condenação relacionada a um acidente de trabalho envolvendo um trabalhador. O caso, amplamente repercutido, reforça a imagem de desprezo pelas instituições e pelas garantias legais — ironicamente, as mesmas instituições que a direita diz defender quando fala em ordem, lei e autoridade.
No campo da atuação profissional, Pablo Marçal se consolidou como um coach digital que promete enriquecimento rápido, sucesso pessoal e transformação de vida por meio de fórmulas simplificadas, frequentemente apontadas por críticos e usuários como enganosas, abusivas e desconectadas da realidade. A internet está repleta de denúncias, questionamentos e relatos de pessoas que se sentiram ludibriadas por esse modelo de negócio. Ainda assim, é com esse personagem que o bolsonarismo decide se associar para disputar espaços de poder.
A contradição é evidente. A mesma direita que construiu sua identidade combatendo a corrupção, demonizando alianças pragmáticas e acusando adversários de falta de moral agora se aproxima, sem constrangimento, de figuras cuja trajetória pública é marcada por controvérsias éticas, condenações judiciais e conflitos com a Justiça. O critério não é a virtude; é a conveniência política.
Esse movimento revela uma verdade incômoda: o bolsonarismo não rompeu com a velha política — apenas a reembalou em slogans religiosos, patrióticos e familiares. As práticas permanecem as mesmas. As alianças seguem sendo feitas nos bastidores, com base em cálculo eleitoral, influência digital e capacidade de mobilização, ainda que isso exija fechar os olhos para o passado e para o presente dos aliados.
Ao fim, o discurso moralista se mostra seletivo. Serve para atacar adversários, inflamar bases e criar uma sensação de superioridade ética, mas é prontamente relativizado quando o objetivo é ampliar poder, conquistar votos ou ocupar espaços estratégicos. A população, mais uma vez, é tratada como plateia de uma encenação cuidadosamente roteirizada.
O bolsonarismo prometeu ser diferente. Prometeu limpar a política, extirpar vícios históricos e inaugurar uma nova era. O que entrega, contudo, é a confirmação de que a velha política nunca saiu — apenas mudou de roupa. E enquanto discursos inflamados seguem ecoando em palanques e redes sociais, o poder continua sendo exercido da forma mais tradicional possível: alianças com figuras controversas, pragmatismo sem ética e moralidade apenas quando convém.
A pergunta que fica não é se a população será novamente enganada, mas até quando aceitará que, em nome de Deus, da pátria e da família, se repita exatamente aquilo que dizia combater.
Por Herbert Costa
