Ao completar um ano à frente da Prefeitura de Cuiabá, o prefeito Abílio Brunini encerra o período inaugural de sua administração com um saldo que frustra expectativas, contradiz promessas de campanha e expõe uma gestão marcada mais por retórica do que por resultados concretos. O que se vê, ao fim desses doze meses, é uma cidade entregue ao abandono cotidiano, enquanto o discurso oficial insiste em celebrar a ausência de operações policiais como se isso, por si só, fosse sinônimo de boa governança.
Durante a campanha, Abílio construiu sua narrativa em torno de promessas diretas e sedutoras: ruas asfaltadas, saúde pública eficiente e a eliminação de entraves administrativos que, segundo ele, eram fruto exclusivo da corrupção. Repetiu à exaustão que o dinheiro existia, mas não chegava às obras por desvios e má gestão. Um ano depois, o argumento desmorona diante da realidade: os recursos entraram nos cofres municipais, mas as entregas não apareceram.
A cidade segue marcada por vias esburacadas, bairros inteiros convivendo com a precariedade do asfalto — quando há asfalto — e uma política de inaugurações simbólicas que mais expõe fragilidades do que resolve problemas. Obras anunciadas como vitrine de gestão mostram-se inacabadas, incapazes de resistir às primeiras chuvas, que alagam, danificam estruturas e reforçam a sensação de improviso. Cuiabá não ganhou um novo padrão de infraestrutura; ganhou eventos de marketing sobre estruturas que não funcionam plenamente.
Na saúde pública, o cenário é ainda mais grave. Unidades sobrecarregadas, falta de insumos, filas persistentes e uma crise que se arrasta sem solução efetiva colocam o sistema à beira de uma nova intervenção judicial. O caos não é episódico; é estrutural. E, novamente, a população ouve explicações genéricas, enquanto o atendimento básico segue distante do que foi prometido como “excelência”.
Diante desse quadro, impõe-se uma pergunta inevitável: se, como insiste o prefeito, não houve corrupção, para onde foi o dinheiro? A equação não fecha. Um ano inteiro de arrecadação, sem obras estruturantes entregues, sem avanços palpáveis na saúde e sem melhoria perceptível na vida urbana. A ausência de resultados cobra explicações mais consistentes do que slogans.
Em entrevista recente, Abílio afirmou sentir orgulho do primeiro ano de gestão por não ter sido alvo de ações policiais ou grandes escândalos. O argumento, no entanto, revela mais sobre o rebaixamento das expectativas do que sobre virtudes administrativas. Não ser investigado não é mérito extraordinário; é obrigação elementar de qualquer gestor público. Governar exige entregar políticas públicas, não apenas evitar manchetes policiais.
Além disso, o próprio discurso do prefeito entra em contradição com os fatos. No primeiro ano de mandato, a administração municipal passou a ser alvo de ao menos duas investigações que colocam em xeque a imagem de pureza propagada. Uma delas envolve a contratação, por dispensa de licitação, de um médico veterinário ligado ao círculo pessoal do prefeito, em um contrato que se aproxima de R$ 600 mil. Outra apuração diz respeito a possíveis irregularidades em contratos da merenda escolar, que somam cerca de R$ 34 milhões. São investigações em curso, que exigem esclarecimentos públicos e transparência — exatamente aquilo que foi prometido como marca do governo.
O contraste entre o discurso anticorrupção e a prática administrativa reforça a percepção de que Cuiabá foi convertida em palco de uma gestão mais preocupada com narrativa ideológica do que com planejamento técnico. O alinhamento político ao bolsonarismo, frequentemente marcado por simplificações, ataques retóricos e construção de inimigos abstratos, parece ter contaminado o método de governo: muito barulho, pouco resultado.
Ao fim do primeiro ano, a cidade é a vítima silenciosa. Vítima de promessas não cumpridas, de obras que não se concluem, de uma saúde pública em colapso e de um governo que se autoelogia por cumprir o mínimo, enquanto falha no essencial. Resta saber o que espera Cuiabá nos próximos três anos de mandato do prefeito apelidado de “Tok Tok”: mais discursos, mais justificativas e menos entregas? Ou, finalmente, a compreensão de que administrar uma capital exige mais do que slogans, vídeos e confrontos retóricos?
Por ora, os fatos falam mais alto que a propaganda. E o balanço do primeiro ano é inequívoco: Cuiabá esperou, pagou — e não recebeu.
Por Herbert Costa
