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Lula quer devolver ao Galeão o posto de hub do Brasil

por JR Vital
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Lula afirmou, nesta semana no Rio de Janeiro, que o Aeroporto Internacional do Galeão precisa recuperar sua posição como principal porta de entrada do país — e que o esvaziamento do terminal nos últimos anos foi um erro estratégico que o Brasil não pode sustentar.

O Galeão já foi o maior hub de voos internacionais da América do Sul. Hoje, perde para o Aeroporto de Guarulhos em São Paulo tanto em volume de passageiros quanto em rotas transatlânticas. A pergunta que o presidente deixou no ar: quem se beneficiou com essa migração silenciosa?

O que Lula disse — sem rodeios

Durante evento no Rio, o presidente foi direto: o país precisa oferecer segurança jurídica, fiscal e econômica para atrair as companhias aéreas de volta ao Galeão. A tríade não é retórica. É a lista de reclamações que operadoras internacionais repetem há anos para justificar a preferência por Guarulhos.

Lula também conectou o aeroporto ao turismo — setor que o governo federal elegeu como prioridade econômica para o segundo mandato. Sem hub internacional robusto no Rio, o fluxo de turistas estrangeiros para a cidade mais visitada do país depende de conexões em São Paulo, encarecendo e complicando a viagem.

O esvaziamento que ninguém quis explicar

O declínio do Galeão não foi acidente. Foi decisão — ou série de omissões que produziram o mesmo resultado.

A concessão do aeroporto à RIOgaleão, consórcio formado por Odebrecht e Changi Airport Group, em 2014, prometia transformar o terminal num aeroporto-modelo. O que veio depois foi uma combinação de crise econômica, pandemia, encargos contratuais pesados e fuga progressiva de companhias para Guarulhos.

Em 2021, a Latam — principal operadora no trecho — transferiu a maior parte de seus voos internacionais para São Paulo. A justificativa oficial foi operacional. O efeito foi cirúrgico: o Galeão perdeu frequências, que perdeu passageiros, que perdeu receita, que perdeu mais companhias.

Segurança jurídica: o eufemismo que vale bilhões

Quando Lula fala em “segurança jurídica”, está falando, entre outras coisas, do contencioso entre a concessionária e o poder público federal sobre as condições do contrato de concessão. A renegociação desse contrato — e seus encargos — é condição necessária para qualquer plano de expansão de rotas.

Sem isso, nenhuma companhia aérea vai ampliar slots num aeroporto cujo futuro contratual está em disputa.

O que significa para o Rio — e para o Brasil

O Galeão operar como hub não é questão de orgulho carioca. É questão de lógica logística.

O Rio de Janeiro recebe mais turistas estrangeiros que qualquer outra cidade brasileira. Concentrar os voos internacionais no Sudeste paulista cria uma assimetria que prejudica tanto o turismo fluminense quanto a conectividade do Nordeste e do Centro-Oeste — regiões que dependem de conexões via Rio para acessar destinos europeus e americanos.

Um hub no Galeão redistribuiria fluxos, reduziria escalas e tornaria o Brasil mais competitivo frente a outros destinos sul-americanos — especialmente Bogotá e Lima, que avançaram como hubs regionais enquanto o Brasil debatia concessões.

O que falta para as palavras virarem política

Defender o Galeão em discurso é fácil. Entregar condições concretas é outra história.

O governo precisa resolver: o impasse contratual com a concessionária; os incentivos fiscais para companhias que operem rotas diretas; a integração multimodal entre o aeroporto e o centro do Rio — ainda um problema crônico que desestimula passageiros de conexão.

Nenhum desses pontos foi endereçado no evento desta semana. Lula falou em estratégia. A estratégia ainda não tem cronograma.

O próximo ato

A COP30, prevista para Belém em novembro de 2025, já está pressionando o governo a apresentar uma matriz logística coerente para receber delegações de mais de 190 países. O Galeão, maior aeroporto da costa atlântica sul-americana, deveria ser peça central desse plano.

Se o governo vai usar a COP30 como prazo político para forçar a retomada do hub — ou se o discurso de Lula no Rio vai se dissolver como outros antes dele — é a questão que as companhias aéreas, os investidores e os turistas estão esperando responder.

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