O EQUILÍBRIO DOS COVARDES
O que Mark Rutte proferiu em Bruxelas não foi um manifesto de cautela, mas o reconhecimento de que a ordem ocidental atingiu seu teto de saturação. Ao descartar o envolvimento direto da OTAN na guerra contra o Irã, o secretário-geral traça uma linha vermelha que não protege Teerã, mas preserva a sobrevivência burocrática da própria aliança.
Para nós, fica claro que a retórica da “ação defensiva” é o novo nome para a complacência estratégica. Enquanto os Estados Unidos e Israel degradam as infraestruturas iranianas, a Europa assiste da plateia, aplaudindo a destruição de mísseis balísticos que poderiam, em última análise, alcançar suas capitais, mas sem oferecer o peito ao fogo. É uma simetria de interesses onde o sangue derramado é sempre o do vizinho.
O Irã, por sua vez, entende a mensagem. Teerã sabe que a OTAN é hoje uma entidade reativa, excessivamente dependente da coesão interna que uma guerra no Oriente Médio estilhaçaria. O silêncio da aliança sobre as represálias israelenses é o aval silencioso para uma reconfiguração do mapa regional à força.
A pergunta que ecoa nos corredores de Bruxelas e que o leitor deve se fazer não é se a guerra será evitada, mas quanto tempo essa neutralidade de fachada resistirá antes que a realidade do terreno force a mão de quem, hoje, prefere o conforto das declarações formais à dureza do campo de batalha. Estará a OTAN preparada para o dia em que Israel não puder mais lutar sozinho?
