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Lula ligou para Sánchez. A conversa desta quarta-feira (4) entre o presidente brasileiro e o primeiro-ministro espanhol sobre a guerra no Oriente Médio é, na superfície, um contato diplomático de rotina entre dois líderes progressistas com posições convergentes sobre o conflito. Numa leitura mais atenta, é o esboço de um eixo político entre dois governos que escolheram, em momentos distintos e por razões diferentes, não seguir a lógica militar que Washington e Tel Aviv estão impondo ao Ocidente.
Os dois defenderam o fim do conflito e a busca por negociações de paz. Lula aceitou um convite para visitar a Espanha em abril. São gestos que, isolados, têm peso limitado. Combinados com o contexto da semana — a recusa de Sánchez em permitir o uso de bases americanas contra o Irã, a ameaça de Trump de retaliação comercial contra Madri, o fechamento da embaixada americana em Beirute — adquirem uma dimensão que vai além do protocolo diplomático.
O que os dois líderes têm em comum — e o que os separa
Lula e Sánchez partilham uma leitura do conflito no Oriente Médio que se afasta do consenso atlantista: ambos entendem que a escalada militar não serve aos interesses de seus países, que o direito internacional não pode ser suspenso por decisão unilateral de Washington e que a solução para a região passa por negociação, não por bombardeio. São posições que os colocam em tensão com a Casa Branca de Trump — e que os aproximam de uma parcela crescente da opinião pública europeia e latino-americana.
O que os separa é a exposição ao risco. Sánchez paga um preço imediato e concreto pela sua posição: a ameaça americana de revisão das relações comerciais bilaterais é real, as bases militares em solo espanhol são objeto de tensão ativa com Washington e a pressão sobre a Espanha no âmbito da OTAN é direta. Lula, por sua vez, opera a uma distância geográfica e geopolítica que lhe permite adotar a mesma posição discursiva com um custo político consideravelmente menor.
O convite de abril e o que ele sinaliza
A aceitação do convite para visitar a Espanha em abril não é um detalhe de agenda. É um sinal enviado em um momento específico: Lula aceita ir a Madri precisamente quando Madri está sendo pressionada por Washington. A visita, se confirmada, terá um enquadramento inevitável — dois líderes que disseram não à guerra, fotografados juntos, no país que pagou o preço mais visível por esse não.
Para Lula, o movimento tem vantagens múltiplas. Reforça seu posicionamento de liderança do Sul Global e de interlocutor de paz — narrativa que o presidente brasileiro cultiva desde o início do conflito em Gaza e que ganhou um novo capítulo com a escalada envolvendo o Irã. Para Sánchez, receber Lula em abril é receber um aliado de peso simbólico num momento em que a Europa, como bloco, ainda não encontrou coragem coletiva para dizer o que a Espanha disse sozinha.
Trump, a pressão e o silêncio europeu que Lula observa
O que a conversa entre Lula e Sánchez também revela é a ausência de outros interlocutores no mesmo registro. Berlim não fez o que Madri fez. Paris ficou em silêncio estratégico. Roma não se posicionou. O bloco europeu, que partilha em privado boa parte da avaliação espanhola sobre o conflito, permanece publicamente paralisado entre a dependência da aliança atlântica e o desconforto crescente com os rumos que Washington está impondo.
Nesse vácuo, Lula ocupa um espaço que líderes europeus maiores estão deixando vago. O Brasil não é membro da OTAN, não tem bases americanas em seu território e não depende de Washington para sua segurança imediata — o que lhe dá uma liberdade de posicionamento que os aliados europeus simplesmente não têm. Essa liberdade tem sido usada pelo governo brasileiro de forma consistente: desde Gaza, passando pela Ucrânia, até a escalada atual, o Brasil se posiciona como defensor do diálogo quando o coro atlantista pede mais armas e mais pressão.
A nota do Planalto e o que ela não disse
O comunicado oficial do Palácio do Planalto sobre a conversa foi econômico, como de costume em contatos diplomáticos sensíveis: os líderes defenderam o fim do conflito, buscaram negociações de paz, Lula aceitou o convite para abril. Nenhuma menção à pressão americana sobre a Espanha. Nenhuma referência à ameaça de retaliação comercial de Trump. Nenhuma palavra sobre as bases militares.
A diplomacia brasileira tem o hábito de dizer em silêncio o que prefere não dizer em voz alta — e o silêncio desta nota é eloquente. Ligar para Sánchez no dia em que ele desafiou Trump e aceitar um convite para visitá-lo em seguida são gestos que dispensam explicação verbal. Washington entendeu. Madri agradeceu. E o mapa diplomático do conflito ganhou mais uma linha — discreta, mas legível para quem sabe ler.
O Oriente Médio, o Sul Global e a arquitetura que Lula tenta construir
A política externa brasileira para o Oriente Médio tem sido consistentemente orientada por dois princípios: defesa do direito internacional e aposta no multilateralismo como mecanismo de solução de conflitos. Esses princípios colocam o Brasil em rota de colisão com Washington em momentos de escalada — e em rota de convergência com potências médias do Sul Global e com governos europeus progressistas como o de Sánchez.
A conversa desta quarta é mais um tijolo nessa arquitetura. Não resolve o conflito. Não para os bombardeios. Não neutraliza a pressão americana sobre a Espanha. Mas contribui para um tecido diplomático alternativo — composto por líderes que recusam a lógica da guerra sem ter poder de detê-la, e que apostam que a soma dessas recusas, ao longo do tempo, pesa mais do que cada uma delas isoladamente.
Se essa aposta está certa, abril, em Madri, dirá algo a mais sobre ela.
